A Herança do Silêncio
Hoje eu queria falar de um filme que não se assiste com pressa. Um filme que pede silêncio. Pede tempo. E pede disponibilidade psíquica.
Valor Sentimental, do Joachim Trier, é um desses filmes. Não é um filme de grandes acontecimentos. É um filme de pequenas cenas… mas de afetos muito grandes. E talvez por isso ele incomode tanto.
A gente vive numa lógica de velocidade. Tudo precisa fazer sentido rápido. Tudo precisa explicar, concluir, resolver. Aqui, não.
O filme demora. As cenas se estendem. Os personagens não explicam tudo o tempo todo. E isso não é falha de roteiro. É proposta.
Porque, na vida psíquica, quase nada é dito de forma direta.
Essa família é atravessada por algo que nunca foi colocado em palavras. Lutos que não foram elaborados. Dores que foram empurradas para debaixo do tapete. Sentimentos que não encontraram escuta.
E quando algo não é simbolizado, ele retorna. Retorna como sintoma. Como repetição. Como mal-estar.
O filme inteiro é atravessado por esse não-dito. E talvez o que mais incomode seja justamente isso: a gente reconhece algo ali.
As filhas herdam algo que não viveram diretamente. Elas não viveram a guerra. Não viveram a depressão da avó. Mas vivem os efeitos disso no corpo e nos vínculos.
Isso é herança psíquica. A gente não herda só bens. A gente herda silêncios. Modos de amar. Modos de se defender.
Mas o filme é muito cuidadoso em mostrar algo essencial: Repetir não é estar condenado. Existe repetição, sim. Mas existe também a possibilidade de fazer algo diferente com isso.
E essa diferença nunca é total. Ela é parcial. Imperfeita. Mas é possível.
Gustav é um homem atravessado pela dor. Ele cresceu vendo uma mãe devastada por um trauma que nunca encontrou palavra.
O cinema vira, para ele, uma saída. Um lugar onde ele consegue organizar o caos. Dar forma ao que ficou fragmentado. Mas também vira um refúgio.
Ele sabe criar histórias… mas não sabe sustentar presença.
E aqui entra algo muito importante para a psicanálise.
O pai, especialmente em Lacan, nunca é o pai ideal. Nunca é completo. Nunca é aquele que garante tudo.
O pai é sempre falho. E isso não é um defeito moral. É uma condição estrutural.
Se o pai fosse todo-poderoso, não haveria espaço para o desejo do filho ou da filha. É justamente a falha do pai que introduz a falta. E é essa falta que permite ao sujeito existir.
No filme, Gustav falha. Falha como pai, falha como presença, falha como suporte afetivo. Mas ele também herdou uma falha. Ele também é efeito de uma história marcada pelo trauma e pelo silêncio.
Ninguém ali é vilão. São sujeitos tentando amar a partir das próprias faltas.
E então chegamos a Nora.
Quando Gustav a convida para protagonizar o filme, algo muito delicado acontece. Existe ali uma tentativa de aproximação. Mas também uma captura.
Como se ele dissesse, sem dizer: “me ajuda a organizar quem eu sou”.
E aqui entra uma imagem muito forte do filme: os rostos. Há momentos em que o rosto do pai e o da filha parecem quase se confundir. Como se um estivesse inscrito no outro.
Isso é muito potente. Porque o cinema, dentro do próprio filme, funciona como máscara. Como persona.
Não no sentido de falsidade. Mas no sentido de revestimento. De forma.
A máscara não apenas esconde. Ela revela.
Quando Gustav transforma a própria história em filme, ele está tentando organizar a memória. Criar uma narrativa para aquilo que, na vida, ficou disperso.
Mas quando ele quer que Nora encarne essa história, os rostos quase se fundem. Como se ele buscasse no rosto da filha uma continuação de si. Como se ela pudesse elaborar o que ele não conseguiu.
E então surge a pergunta essencial: Onde termina o pai e começa a filha?
Na transmissão psíquica, existe sempre o risco da fusão imaginária. E é por isso que a separação é fundamental.
Quando Nora recusa o papel, ela não está apenas recusando um trabalho. Ela está tentando não ser engolida pela história do pai.
É um “não” que introduz um corte. E, paradoxalmente, é ela quem encarna ali a função que separa.
Porque a função paterna, na psicanálise, não está presa ao pai biológico. Ela é a função que introduz limite.
E às vezes quem realiza esse corte não é o pai. É o filho.
Mesmo assim, Nora repete algo do pai. Ela também se entrega intensamente ao trabalho. Também transforma a arte em sustentação.
A repetição nunca é idêntica. Ela carrega algo do passado, mas sempre com uma torção.
E é nessa torção que mora a possibilidade de diferença.
Agnes ocupa outro lugar. Ela tenta construir algo mais estável. Forma uma família. Tenta não transmitir o trauma adiante.
Mas isso não significa ausência de sofrimento. Significa outra forma de lidar com ele.
O filme é honesto nisso: ninguém sai ileso de uma história familiar.
A casa também é um personagem. Ela guarda rachaduras. Memórias. Marcas do tempo. É quase um corpo.
E como todo corpo, envelhece, se desgasta… mas pode ser cuidado.
Nada garante que o passado desapareça. Mas algo pode ser reorganizado.
Cinema e teatro aparecem como tentativas de simbolizar o excesso. Não como cura. Mas como forma de não ser esmagado pelo que não tem nome.
Transformar a dor em narrativa pode ser elaboração. Mas também pode ser defesa.
O filme sustenta essa ambiguidade com muita delicadeza.
No fim, Valor Sentimental não é um filme sobre vilões e vítimas. É um filme sobre pessoas falhas.
E talvez seja isso que mais doa.
Não houve ausência de amor. Houve ausência de palavra.
Olhar para a falha não destrói. O que destrói é fingir que ela não existe.
E talvez o verdadeiro valor sentimental não esteja em repetir fielmente o passado. Mas em introduzir uma diferença.
Mesmo pequena. Mesmo imperfeita. Mesmo tardia.
Porque um pai todo-poderoso aprisiona. Um pai falho possibilita.
E é dessa falha que algo novo pode nascer.
Elenice Milani.
Vídeo no Youtube (Clique aqui)


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