Isabel Archer, em "Retrato de uma Mulher”, não é apenas uma jovem americana perdida nas intrigas da Europa. Ela é o retrato de como o sujeito, ao escolher, se prende na própria armadilha do desejo.

Henry James constrói uma Isabel movida pelo idealismo: recusa Warburton e sua segurança porque busca algo maior, mais elevado. Mas como nos lembra a psicanálise: não escolhemos com a razão, mas com o inconsciente. Isabel se casa com Osmond porque nele projeta o ideal de grandeza, mas encontra apenas o vazio.

Muitas vezes ouço na clínica: “Tenho um dedo podre para relacionamentos”. Freud nos lembra: não é o dedo que é podre. É o sintoma que insiste em se alimentar das mesmas escolhas. Isabel não foi enganada apenas por Osmond, mas pelo próprio desejo que a levou a repetir o engano.

Lacan dizia: “O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer.” Isabel deu tudo a Osmond, e recebeu nada em troca. Mas não porque foi ingênua, e sim porque o amor sempre passa pela falta.

E aqui entra Jane Campion. Ao adaptar o romance, a diretora não quis apenas traduzir James, mas interpretá-lo sob uma lente contemporânea e feminista. Sua Isabel não aparece mais como heroína trágica que ousa escolher — mas como uma mulher que se deixa capturar por uma posição masoquista. A heroína de James vira vítima no cinema.

Do ponto de vista psicanalítico, essa mudança é crucial: Em James, Isabel é trágica porque erra a partir da liberdade. Em Campion, Isabel é trágica porque sofre a partir da submissão.

A psicanálise nos ensina: não existe escolha sem perda. Mas existe diferença entre ser sujeito da própria perda ou se deixar capturar como objeto do outro.

Isabel, em James, erra porque deseja. Isabel, em Campion, sofre porque se entrega.

Essa diferença nos provoca a pensar: quantas vezes nossas histórias de amor ficam aprisionadas na chave da vítima, quando na verdade são fruto da nossa fidelidade inconsciente ao sintomas? Não é o dedo que é podre: é o sintoma que insiste em escolher por nós.

No amor, repetimos mais do que escolhemos. O inconsciente não busca felicidade: busca satisfação.

Em James, Isabel é trágica porque ousa; em Campion, porque se submete. Toda escolha amorosa é também uma escolha inconsciente.

Elenice Milani.

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O filme Um Amor de Swann (1984), dirigido por Volker Schlöndorff, é uma adaptação justamente dessa parte de Em Busca do Tempo Perdido. Ele traz à tela, de forma visual e dramática, aquilo que Proust descreve com tanta minúcia: a paixão de Swan por Odete.

O filme de Schlöndorff mostra com imagens aquilo que Proust nos entrega pela palavra: a construção imaginária que Swann faz de Odette. Ele a transforma em objeto absoluto de desejo, projetando nela a nostalgia do “objeto perdido” de que fala Freud.

Cada gesto dela ganha um peso excessivo. Cada ausência, um motivo para suspeita. O ciúme, então, aparece como sombra inseparável do amor — até o ponto em que Swann não consegue mais distinguir entre realidade e fantasia.

A cena em que ele se coloca sob a janela, alucinado, acreditando ouvir a traição de Odette, é um retrato cinematográfico daquilo que Lacan chama de alienação no desejo: o sujeito não encontra o objeto em si, mas se perde no labirinto de suas próprias suposições.

No fim, assim como no livro, Swann descobre que o grande amor de sua vida não passava de uma ilusão. A frase célebre — “E dizer que desperdicei anos de minha vida…” — ecoa como uma revelação amarga: não é apenas o fim de uma paixão, mas a constatação da impossibilidade de reencontrar o objeto perdido.

O cinema, nesse caso, nos dá a possibilidade de ver e sentir a fragilidade humana diante do desejo, algo que a psicanálise nos ajuda a pensar: o amor muitas vezes se confunde com a tentativa impossível de colar a falta.

Elenice Milani.

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O filme Um Amor de Swann (1984), dirigido por Volker Schlöndorff, é uma adaptação justamente dessa parte de Em Busca do Tempo Perdido . Ele...


O filme As Horas é inspirado no romance homônimo de Michael Cunningham, que por sua vez se constrói a partir da obra Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf.

O livro e o filme costuram três histórias de mulheres em épocas diferentes — todas atravessadas por uma mesma sensação: a de não caber na vida que vivem.

A escritora Virginia Woolf, nos anos 20, luta para escrever e resistir à sua dor psíquica. Laura Brown, nos anos 50, lê Mrs. Dalloway e se vê à beira do colapso, engolida pelo ideal da dona de casa perfeita. Já nos anos 2000, Clarissa Vaughan vive a liberdade moderna — mas continua presa à expectativa de cuidar de todos, menos de si mesma.

Em todas elas, o tempo é mais do que relógio. O tempo é o que pesa. O que aprisiona. O que sufoca.

E aqui entra a leitura psicanalítica, a partir do livro Deslocamento do Feminino, de Maria Rita Kehl.

Kehl mostra como, historicamente, o tempo da mulher sempre foi o tempo do Outro: o tempo do marido, dos filhos, da casa, da espera, da obediência.

Quando uma mulher tenta sair desse tempo, ela encontra resistência — da cultura, da moral, da culpa. E também de si mesma.

A psicanálise nos ajuda a escutar esse incômodo: o mal-estar que aparece quando a mulher percebe que vive num tempo que não é seu.

O feminino, para a psicanálise, não é um papel pronto, nem um ideal a ser alcançado. É aquilo que escapa. Que transborda. Que insiste, mesmo quando não encontra palavras.

Virginia escreve para suportar o que não cabe nela. Laura abandona o lar para salvar a si mesma. Clarissa precisa perder — para finalmente se reencontrar.

As Horas nos lembra que o tempo da mulher não pode continuar sendo o tempo do sacrifício.

Como diz Lacan, “o desejo é atemporal.” Quando uma mulher escuta o seu desejo — ela não só muda sua vida. Ela muda o tempo.

Elenice Milani.

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O filme As Horas é inspirado no romance homônimo de Michael Cunningham, que por sua vez se constrói a partir da obra Mrs. Dalloway , de Vir...

Cena do filme "Melancolia" dirigido por Lars Von Trier, lançado em 2011

por Elenice Milani | 04 de Abril de 2025

    O filme Melancolia (2011), de Lars von Trier, não trata apenas do fim do mundo, mas do colapso interno de uma subjetividade. Justine, a protagonista, não teme a destruição iminente; ao contrário, parece encontrá-la como um desfecho esperado. Seu olhar vazio, sua apatia e sua recusa em lutar pela sobrevivência revelam um estado psíquico que Freud descreveu em Luto e Melancolia (1915): uma identificação destrutiva com o objeto perdido e a ação cruel do superego.

Melancolia e o Superego Destrutivo


    Para Freud, a melancolia é marcada por um conflito interno: o ego se identifica com um objeto amado e perdido, mas, ao invés de lamentá-lo, dirige contra si mesmo toda a raiva e frustração que deveriam estar voltadas para esse objeto. Assim, o sujeito melancólico se torna seu próprio agressor, perpetuando uma autodepreciação incessante.
    No filme, Justine se apresenta exatamente dessa forma. Sua tristeza não é apenas um estado emocional, mas um processo de autodestruição. Ela se afasta dos outros, recusa cuidados, se sabota profissionalmente e se entrega a uma apatia profunda. Freud aponta que essa dinâmica está ligada à ação do superego, que se torna excessivamente punitivo.    Enquanto no luto há um sofrimento direcionado à perda, na melancolia o superego acusa o próprio sujeito, repetindo frases de autodesvalorização como um juiz implacável.
    O comportamento de Justine ilustra essa lógica: sua autopercepção é marcada por desprezo e culpa. Ela se sente inadequada, sem valor e incapaz de se conectar com o mundo. Seu superego não permite trégua—ele a destrói lentamente.

O Gozo na Melancolia e o Prazer na Dor


    Outro ponto importante na psicanálise lacaniana é que o melancólico não apenas sofre, mas extrai um certo gozo desse sofrimento. No filme, Justine parece se alimentar da ideia de que o mundo merece acabar. Sua posição não é apenas de vítima, mas de alguém que aceita e até mesmo antecipa o desastre. A frase "a Terra é má", dita por ela, sugere uma visão de mundo onde a destruição é inevitável e, de certo modo, desejada.
    Esse aspecto se relaciona com o conceito de pulsão de morte em Freud (Além do Princípio do Prazer, 1920). A pulsão de morte é um impulso que nos leva à repetição, à autodestruição e, em última instância, à dissolução do próprio eu. Justine, ao invés de resistir ao fim, se entrega a ele, como se finalmente estivesse encontrando um destino que já carregava dentro de si.

Claire e a Neurose: O Medo do Fim


    Se Justine representa a entrega à pulsão de morte, Claire encarna a angústia neurótica diante da catástrofe. Diferente da irmã, ela luta para manter o controle, seguir protocolos e preservar a esperança, mesmo quando tudo aponta para o colapso. Sua angústia extrema reflete o medo do desconhecido e a recusa em aceitar a perda.
Aqui, Freud nos ajuda a entender a diferença entre a neurose e a melancolia. Enquanto o neurótico se angustia tentando controlar o que não pode ser controlado, o melancólico se entrega passivamente ao destino, muitas vezes antecipando sua própria ruína. Claire tenta proteger sua família, busca soluções e luta contra o inevitável, enquanto Justine apenas observa, com um olhar vazio, o desenrolar da tragédia.

O Que a Melancolia Nos Ensina?


    Freud escreveu que "o melancólico dispõe de uma visão mais penetrante da verdade do que outras pessoas que não são melancólicas" (Freud, 1915). Mas essa verdade é dolorosa demais para ser suportada. Justine, ao enxergar a vida como vazia e sem sentido, não encontra razões para lutar. Seu olhar "penetrante" revela o que muitos não querem ver, mas ao custo da própria vitalidade.
    Por outro lado, a neurose de Claire mostra o desespero de quem tenta negar o incontrolável. Freud e Lacan nos ensinam que nem a entrega total ao desespero, nem a tentativa de controle absoluto são caminhos saudáveis. A psicanálise nos convida a refletir: como lidamos com a perda? Como nosso superego nos julga? A melancolia nos faz ver certas verdades, mas é preciso encontrar uma forma de seguir vivendo apesar delas.
    A melancolia, de fato, é uma das formas mais intensas de sofrimento psíquico, descrita por Freud como uma situação em que o superego, alimentado pela pulsão de morte, assume uma posição extremamente punitiva e violenta contra o ego.
    Na melancolia, o superego transforma o ódio direcionado ao objeto perdido em uma autocensura cruel, voltando-se contra o ego com um rigor insuportável. Isso gera sentimentos de desvalorização, culpa extrema e, muitas vezes, o desejo de autodestruição, que pode se manifestar através de pensamentos suicidas ou comportamentos autodestrutivos.
Freud e outros psicanalistas destacam que a pulsão de morte é uma força interna que busca a dissolução e o fim, enquanto Eros, a pulsão de vida, trabalha para unir, preservar e criar.    Para que a pulsão de morte não se manifeste de forma destrutiva, é necessário que ela seja atenuada pela energia libidinal de Eros. Essa integração pode ser alcançada por meio de vínculos afetivos, criatividade, trocas sociais e o cultivo de experiências que promovam a vida.

Cena do filme "Melancolia" dirigido por Lars Von Trier, lançado em 2011 por Elenice Milani | 04 de Abril de 2025      O filme ...

por Elenice Milani | 21 de Fevereiro de 2025


    
Cena do filme "Camille Claudel" de 1988, dirigido por Bruno Nuytten
    Duas versões do cinema trouxeram a vida da escultora Camille Claudel para as telas. Em Camille Claudel (1988), vemos sua trajetória como artista e sua relação intensa com Rodin – mestre, amante e também objeto de seu desvario. Já em Camille Claudel 1915 (2013), acompanhamos sua solidão no confinamento psiquiátrico, onde passou quase 30 anos esperando por liberdade.
    Camille foi uma mulher à frente de seu tempo, mas também tragada por um amor devastador. Na psicanálise, podemos pensar em duas formas de gozo que atravessam sua história: o gozo erotomaníaco, em que o outro se torna um suporte absoluto do amor, e o gozo da devastação, marcado por uma dor sem limites, que tudo consome.
    Além disso, Camille tinha uma relação singular com o barro. Moldar a matéria não era apenas um gesto artístico, mas uma necessidade psíquica, quase uma tentativa de reconstrução de si mesma. Na época, essa compulsão foi chamada de “a doença do barro”, um traço da estrutura psicótica que a habitava. Sua escultura era mais do que arte, era um modo de existir.
    Se sua vida foi marcada pelo desmedido e pelo abandono, sua obra sobreviveu. O barro que ela moldava resistiu ao tempo e rompeu o silêncio imposto a ela.
    Na psicanálise, buscamos manter viva a interrogação sobre esse enigma: até onde a paixão pode nos levar? O que acontece quando o desejo de moldar o mundo é a única forma de sustentar a própria existência?
    Qual dessas versões da história de Camille você já viu? O que sua arte desperta em você?

Cena do filme "Camille Claudel 1915" de 2013, dirigido por Bruno Dumont



por Elenice Milani | 21 de Fevereiro de 2025      Cena do filme "Camille Claudel" de 1988, dirigido por Bruno Nuytten      Duas v...

 por Elenice Milani | 27 de Janeiro de 2025


        Emma Bovary, protagonista da obra de Gustave Flaubert, é um dos retratos mais complexos do desejo humano na literatura. A partir de uma perspectiva psicanalítica, sua história revela a angústia e a insatisfação que marcam a busca incessante por preencher a falta constitutiva do sujeito.
        No século XIX, período em que a obra é ambientada, a histeria foi central para o desenvolvimento da Psicanálise por Freud. Emma é uma personagem que encarna a histeria feminina, marcada pela oscilação entre o desejo e a impossibilidade de sua realização plena. Sua fragilidade identificatória surge desde jovem, quando não encontra lugar nem no convento nem na vida doméstica.
        Segundo Freud, a histérica reconhece a castração, mas tenta compensá-la, buscando respostas para a questão: "O que é ser mulher?". Emma projeta nos homens a esperança de encontrar essa resposta, mas cada relação a conduz à frustração, pois nenhum deles é capaz de preencher sua falta.
        Emma é movida por um desejo insaciável de "ser outra". Busca transcendência no amor romântico, no adultério e no consumo, mas sempre se depara com a realidade de que o desejo é, por essência, insatisfeito. Sua relação com o consumo e os romances que lê reforçam uma fantasia de completude que nunca se concretiza.
        Jacques Lacan destaca que o desejo humano é sempre desejo do Outro, e Emma exemplifica essa lógica ao delegar seu desejo ao olhar alheio, buscando ser o objeto de desejo de homens que, na verdade, não podem responder às suas expectativas.
        A morte de Emma é simbólica e inevitável. Incapaz de lidar com as consequências de suas escolhas e as dívidas acumuladas, ela recorre ao arsênico como uma tentativa desesperada de retomar o controle. No entanto, o sofrimento físico do envenenamento a confronta com a realidade de sua condição humana, evidenciando a distância entre sua fantasia e o real.
        Segundo a psicanalista Aulagnier, a morte oferece ao sujeito o que ele não sabia demandar: o fim do sofrimento e da insatisfação. Para Emma, a morte é sua última tentativa de realização do desejo, mas pela via do não-desejo.
        Além de ser um estudo profundo do desejo e da subjetividade, Madame Bovary é uma crítica ao senso comum burguês do século XIX. Emma representa uma mulher que desafia as normas sociais, mas paga um preço alto por sua transgressão. Sua tragédia pessoal não altera a rotina provinciana de Yonville, reforçando a crítica de Flaubert à mediocridade da vida burguesa.
        Apesar de ambientada em outro século, a obra permanece atual ao explorar temas como o consumo, a busca por identidade e a insatisfação estrutural do desejo humano. Emma Bovary continua a ser um retrato trágico e fascinante da condição humana, desafiando leitores e estudiosos a refletirem sobre os limites entre o ideal e a realidade, entre o desejo e sua impossibilidade.

Isabelle Huppert como Emma Bovary no filme "Madame Bovary" de 1991, dirigido por Claude Chabrol

 por Elenice Milani | 27 de Janeiro de 2025           Emma Bovary, protagonista da obra de Gustave Flaubert, é um dos retratos mais complex...

por Elenice Milani | 07 de Janeiro de 2025


Cate Blanchett no filme "Blue Jasmine" (2013), dirigido por Woody Allen

    A análise de Blue Jasmine nos oferece um olhar profundo sobre os conceitos de alienação e separação na psicanálise lacaniana. Jasmine é uma personagem que personifica o colapso entre o que ela acreditava ser e o vazio que tenta evitar a todo custo. Sua alienação é explícita: ela se prende a uma fantasia de vida perfeita, construída a partir do desejo do Outro — no caso, o marido e o status social que ele proporcionava. Esse mergulho na alienação a mantém desconectada da própria verdade, protegida por um "mundo cor-de-rosa" que inevitavelmente desmorona.
    Quando Jasmine denuncia o marido, ela provoca a ruptura com essa ilusão, mas não sem um custo devastador. O gesto não é apenas um ato de vingança, mas também um “passar ao ato” que evidencia seu colapso subjetivo. Sem o suporte do marido e da fantasia, Jasmine se vê face a face com o real, uma verdade sobre si mesma que ela não deseja encarar.
    O filme destaca a fragilidade humana diante da perda e do desejo. A fala vazia de Jasmine — esse discurso sem destinatário, desconectado do presente — reflete a sua tentativa de permanecer na fantasia enquanto evita a dor do real. Ela está eclipsada em suas lembranças, tentando recuperar o gozo perdido de um passado idealizado.
    Lacan nos ensina que alienação e separação são processos que se entrelaçam. Na alienação, o sujeito se entrega ao desejo do Outro, abrindo mão de si mesmo. Já na separação, surge a possibilidade de se reconhecer como sujeito desejante, mas isso também traz à tona a falta no Outro. Jasmine, ao romper com seu mundo fantasioso, vivencia um colapso narcisista, mas algo de seu desejo começa a emergir, ainda que instável e transitório.
       No final, o isolamento de Jasmine não é apenas físico, mas psíquico. Sentada sozinha no banco, sua fala desconectada revela que, mesmo perdida, algo de sua verdade foi tocado. É um ciclo de desconstrução que permite uma nova perspectiva sobre sua história, ainda que ela, talvez, nunca consiga sustentá-la plenamente.
    Blue Jasmine, com sua narrativa de dor, perda e ilusão, nos convida a refletir sobre as fragilidades humanas, o vazio que tentamos evitar e o custo de confrontar nossas próprias fantasias.

por Elenice Milani | 07 de Janeiro de 2025 Cate Blanchett no filme "Blue Jasmine" (2013), dirigido por Woody Allen     A análise d...

por Elenice Milani | 19 de Dezembro de 2024

Imagem do filme "Magalópoles" de Francis Ford Coppola.

   
        A experiência de Megalópoles, filme épico e audacioso de Francis Ford Coppola, evoca sentimentos complexos e ressonantes, quase como a leitura de Finnegans Wake de James Joyce. Ambos são criações que demandam um olhar além do imediato, uma disposição para o estranhamento e a angústia de buscar significado onde ele parece escapar.
        Como Joyce, que transformou a linguagem em um mosaico de significados, Coppola propõe, em Megalópoles, uma narrativa fragmentada e quase onírica, onde o público se vê diante de uma colcha de retalhos que revela o inconsciente do criador. Essa abordagem remete à ideia lacaniana do vazio estrutural que move o desejo humano, sempre em busca de algo inalcançável. O filme de Coppola não é uma experiência de respostas; é uma provocação de incompletude, uma obra que reverbera a própria estrutura do psiquismo, onde o desejo habita o espaço entre o que é dito e o que permanece inacessível.
        Em Megalópoles, o diretor oferece uma Nova Roma futurista — um cenário distópico para debater a morte da democracia e as ambições de poder que desestabilizam qualquer ideal de sociedade perfeita. Esse cenário, ao mesmo tempo épico e surreal, não nos conduz a uma moral ou a uma solução clara, mas, ao contrário, intensifica a experiência de um fluxo de consciência, de uma sucessão de cenas que espelham a associação livre, o método fundamental da psicanálise.
        Coppola, ao criar esse filme, desafia a si mesmo e o público, explorando uma narrativa visual que nos suga, sem oferecer uma direção clara, mas abrindo espaço para interpretações que se multiplicam e se fragmentam. Em última instância, Megalópoles pode ser lido como uma metáfora da própria trajetória de Coppola, um herói que, tendo experimentado sucessos e fracassos, se lança agora ao seu projeto mais arriscado — um testamento à criatividade que, segundo Lacan, tem na invenção o amparo do “sinthome” que nos permite lidar com o Real.
        Assim como Joyce e Coppola entendem o vanguardismo como uma necessidade de correr riscos e explorar o não dito, Megalópoles se apresenta como um filme que não se compromete com a expectativa do público, mas com a liberdade criativa de seu diretor. É uma obra aberta que, mais do que oferecer respostas, nos convida a pensar sobre o desejo, o vazio e a invenção — as forças que moldam a nossa própria condição humana.

Elenice Milani

por Elenice Milani | 19 de Dezembro de 2024 Imagem do filme "Magalópoles" de Francis Ford Coppola.                A experiência de...