INIBIÇÃO, SINTOMA E ANGÚSTIA - Freud e o sofrimento do sujeito no cinema (100 anos depois)
Por que, muitas vezes, não conseguimos fazer aquilo que desejamos? Por que repetimos situações que nos fazem sofrer, mesmo quando acreditamos querer sair delas? E por que, em determinados momentos, somos tomados por uma angústia que parece ultrapassar nossa capacidade de compreender o que está acontecendo?
Há cem anos, em 1926, Sigmund Freud publicou *Inibição, Sintoma e Angústia*, uma obra fundamental para a compreensão do sofrimento psíquico.
Nesse texto, Freud retoma questões centrais da psicanálise e aprofunda sua investigação sobre a angústia, o sintoma e as limitações que podem surgir na vida de um sujeito.
A psicanálise nos ensina que nem sempre somos senhores daquilo que pensamos, desejamos ou fazemos. Existe uma dimensão inconsciente que participa de nossas escolhas, de nossos impasses e de nossas repetições.
É justamente por isso que o cinema pode ser um campo tão interessante de investigação. Ao acompanhar a trajetória de uma personagem, somos confrontados com conflitos, desejos e sofrimentos que ultrapassam aquilo que aparece na superfície da narrativa.
Hoje, proponho pensar os três conceitos presentes no título da obra de Freud a partir de três filmes: *O Discurso do Rei*, para refletirmos sobre a inibição; *Melhor É Impossível*, para pensarmos o sintoma; e *Cisne Negro*, para nos aproximarmos da angústia.
Não se trata de transformar personagens em diagnósticos, mas de utilizar o cinema como uma possibilidade de interrogar a complexidade da experiência humana.
Inibição — O Discurso do Rei
Dirigido por Tom Hooper, em 2010, *O Discurso do Rei* apresenta a trajetória de Albert, que se torna o rei George VI e enfrenta uma importante dificuldade: falar em público.
Sua posição exige discursos, aparições e pronunciamentos. Entretanto, aquilo que parece uma tarefa simples para outras pessoas se transforma, para ele, em uma experiência marcada pelo sofrimento e pela dificuldade de se expressar.
O que nos interessa aqui é a relação entre a exigência de falar e a impossibilidade de fazê-lo como se espera.
Em *Inibição, Sintoma e Angústia*, Freud diferencia a inibição do sintoma. A inibição diz respeito a uma limitação de determinada função do eu. Ela pode atingir atividades diversas, como falar, trabalhar, amar ou realizar algo que, em outras circunstâncias, seria possível.
Não devemos, evidentemente, reduzir a gagueira do personagem a um conflito psíquico. O filme nos permite, porém, observar como uma dificuldade pode adquirir dimensões subjetivas importantes quando o sujeito se encontra submetido às exigências do olhar do outro.
No caso de Albert, não se trata apenas de pronunciar palavras. Trata-se de ocupar um lugar, corresponder às expectativas e sustentar a própria voz diante de uma sociedade que espera dele uma atuação impecável.
A palavra fica atravessada pela exigência. Falar deixa de ser apenas uma função e passa a envolver a posição que ele precisa ocupar diante dos outros.
Podemos, então, formular uma pergunta: o que acontece quando aquilo que desejamos realizar se torna também aquilo diante do qual nos sentimos incapazes?
A inibição não significa necessariamente ausência de desejo. Muitas vezes, o desejo está presente, mas sua realização encontra um obstáculo.
O filme nos ajuda a perceber que a relação com a palavra não é apenas uma questão de comunicação. Falar também é se expor, assumir uma posição e se colocar diante do outro.
A trajetória de Albert não elimina magicamente suas dificuldades. Ela mostra um trabalho gradual, no qual a relação de confiança com Lionel Logue, seu terapeuta da fala, permite que ele encontre outras maneiras de enfrentar aquilo que o limita.
É importante observar que não se trata simplesmente de vencer um medo, mas de construir condições para sustentar sua palavra.
E talvez essa seja uma das questões que o filme nos deixa: quantas vezes a exigência de corresponder ao que esperam de nós acaba restringindo justamente aquilo que precisamos expressar?
Sintoma — Melhor É Impossível
Em *Melhor É Impossível*, filme de James L. Brooks, de 1997, encontramos Melvin Udall, um escritor cuja vida é organizada por rituais rígidos, repetições e comportamentos que dificultam sua convivência com outras pessoas.
Ele segue regras minuciosas, evita determinados contatos e parece precisar controlar os detalhes do cotidiano para manter alguma estabilidade.
Se, no primeiro filme, acompanhamos uma função que encontra obstáculos, aqui nos deparamos com algo que se repete e que, embora produza sofrimento, também parece cumprir uma função para o sujeito.
É nesse ponto que podemos nos aproximar do conceito freudiano de sintoma.
Para a psicanálise, o sintoma não é simplesmente um comportamento estranho que deveria ser eliminado. Ele possui uma lógica inconsciente e está relacionado à história singular de quem o apresenta.
Em Freud, o sintoma pode ser compreendido como uma formação de compromisso: expressa algo do conflito psíquico, mas também constitui uma solução encontrada pelo sujeito, ainda que seja uma solução que lhe custe sofrimento.
Isso significa que o sintoma não é inteiramente estranho àquele que o produz. Mesmo quando o sujeito se queixa dele e deseja livrar-se de suas consequências, há algo de sua economia psíquica implicado naquela repetição.
No filme, os rituais de Melvin parecem organizar seu cotidiano e estabelecer limites diante de situações que ele não consegue manejar com facilidade. Ao mesmo tempo, tornam sua vida mais restrita e comprometem suas relações.
O personagem nos permite pensar uma questão fundamental: por que continuamos fazendo algo que reconhecemos como prejudicial?
A resposta psicanalítica não consiste em dizer que o sujeito gosta de sofrer, nem que basta tomar consciência do problema para resolvê-lo.
Há uma diferença entre saber que determinado comportamento causa sofrimento e conseguir modificar a relação que se mantém com ele.
O inconsciente não se transforma simplesmente porque encontramos uma explicação racional para aquilo que fazemos.
Ao longo da narrativa, o encontro com outras pessoas introduz deslocamentos na vida de Melvin. Suas certezas são confrontadas, e ele se vê diante de situações que não consegue controlar inteiramente.
Isso não significa que o amor, por si só, cure um sintoma. O filme nos interessa porque mostra como o encontro com o outro pode abalar uma organização rígida e abrir possibilidades de mudança.
A psicanálise não propõe uma adaptação imediata a um ideal de normalidade. Ela busca compreender a função que o sintoma exerce na vida de cada sujeito e o que pode ser elaborado a partir dessa compreensão.
O sintoma tem uma história. E, para que algo se transforme, é preciso que o sujeito possa construir outra relação com aquilo que se repete.
Angústia — Cisne Negro
Em *Cisne Negro*, de Darren Aronofsky, lançado em 2010, acompanhamos Nina, uma bailarina que deseja alcançar a perfeição na interpretação do balé *O Lago dos Cisnes*.
A personagem vive submetida a exigências intensas. A busca por excelência artística se mistura à pressão externa, à relação com a mãe e a uma cobrança que parece não admitir falhas.
O corpo, a disciplina e a imagem tornam-se elementos centrais de sua trajetória.
A cada passo, Nina parece precisar provar que é capaz de corresponder ao ideal que a orienta. Entretanto, quanto mais se aproxima daquilo que considera a perfeição, mais sua experiência se torna ameaçadora.
O filme nos conduz, assim, ao terceiro conceito: a angústia.
Em *Inibição, Sintoma e Angústia*, Freud reformula sua compreensão da angústia e atribui ao eu um papel central em sua produção como sinal de perigo. A angústia sinaliza uma situação que o sujeito experimenta como ameaçadora e diante da qual suas possibilidades de defesa podem se mostrar insuficientes.
Isso não significa que toda angústia tenha a mesma origem ou que possa ser explicada por uma única causa. A contribuição de Freud está justamente em investigar sua relação com o perigo, o conflito e as formas pelas quais o sujeito tenta se proteger.
Em *Cisne Negro*, a exigência de perfeição vai estreitando o espaço de Nina para a experiência do próprio desejo. Parece não haver lugar para a falha, para a dúvida ou para a possibilidade de não corresponder ao ideal.
O que deveria ser uma conquista artística transforma-se em uma ameaça à sua estabilidade subjetiva.
É como se a personagem precisasse apagar tudo aquilo que, nela, não coincide com a imagem idealizada que busca alcançar.
Podemos pensar, então, no preço psíquico de viver sob a exigência de ser perfeita.
A angústia de Nina não deve ser reduzida a uma simples consequência da competição ou da pressão profissional. O filme constrói uma experiência complexa, na qual diferentes exigências, conflitos e fragilidades se entrelaçam.
Seu sofrimento nos faz perguntar: o que acontece quando o ideal que deveria orientar o sujeito passa a ameaçar sua própria existência?
Essa questão ultrapassa o universo da dança. Vivemos em uma sociedade que valoriza o desempenho, a produtividade, a juventude e a exposição constante de imagens de sucesso.
Somos frequentemente convocados a apresentar uma versão ideal de nós mesmos, como se fosse possível eliminar a falta, a contradição e a fragilidade.
Mas a experiência humana não se deixa reduzir a um ideal de perfeição.
A angústia pode surgir justamente quando os recursos habituais do sujeito já não são suficientes para responder às exigências que o atravessam.
O filme nos lembra que o sofrimento não pode ser compreendido apenas pelo que aparece externamente. É necessário considerar a maneira singular pela qual cada sujeito se relaciona com seus ideais, com o desejo do outro e com os limites da própria existência.
Cem anos depois da publicação de *Inibição, Sintoma e Angústia*, as questões levantadas por Freud continuam fundamentais.
Jacques Lacan retoma a descoberta freudiana e amplia a investigação sobre o inconsciente, destacando a importância da linguagem, do desejo e da relação do sujeito com o Outro.
Não se trata de substituir Freud, mas de acompanhar os desdobramentos de sua obra.
A partir de Lacan, podemos pensar que o sujeito não se constitui isoladamente. Sua história é atravessada pelas palavras que o antecedem, pelas expectativas que recaem sobre ele e pelos significantes que marcam sua existência.
Isso nos ajuda a compreender por que o sofrimento não pode ser explicado apenas por acontecimentos exteriores, nem resolvido por fórmulas universais.
Cada sujeito constrói uma relação singular com a inibição, com o sintoma e com a angústia.
O cinema, ao apresentar personagens diante de seus impasses, permite que essas questões ganhem corpo, imagem e movimento. Não oferece necessariamente respostas, mas abre um espaço para perguntas que também dizem respeito a nós.
Em *O Discurso do Rei*, encontramos a inibição e o desafio de sustentar a própria palavra.
Em *Melhor É Impossível*, acompanhamos a repetição sintomática e a dificuldade de transformar aquilo que organiza o sofrimento.
Em *Cisne Negro*, vemos a angústia surgir em uma trajetória marcada pela exigência de perfeição e pela ameaça de não corresponder ao ideal.
Três filmes, três percursos diferentes, que nos ajudam a pensar a atualidade de uma obra publicada há cem anos.
Freud continua nos ensinando que o sofrimento psíquico não é um acontecimento sem sentido, embora seu sentido nem sempre esteja acessível à consciência. Escutar o sujeito exige tempo, atenção e disposição para não antecipar respostas.
Talvez seja essa uma das grandes contribuições da psicanálise: reconhecer que há algo em nós que não dominamos inteiramente, mas com o qual podemos construir uma relação diferente.
E o cinema, com suas imagens, silêncios e personagens, oferece uma oportunidade singular de nos aproximarmos dessas questões.
Cem anos depois, *Inibição, Sintoma e Angústia* permanece vivo porque o sofrimento humano continua nos convocando a pensar.
E deixo uma pergunta para vocês: **em que momento aquilo que nos impede, aquilo que se repete ou aquilo que nos angustia pode revelar algo que ainda não conseguimos escutar sobre nós mesmos?**
Esse é o convite de *Psicanálise, Filosofia e Cinema*: continuar pensando Freud, o cinema e as questões do sujeito no mundo contemporâneo.
Até o próximo encontro!
Por que, muitas vezes, não conseguimos fazer aquilo que desejamos? Por que repetimos situações que nos fazem sofrer, mesmo quando acreditamo...
O Corte de Frida Kahlo
Há gestos que parecem pequenos, cotidianos, quase banais.
Cortar os cabelos pode ser simplesmente uma mudança de aparência. Mas há
momentos em que um corte no corpo pode carregar uma dimensão muito maior.
Hoje eu quero falar sobre Frida Kahlo.
E quero partir de uma pergunta.
O que Frida está cortando quando corta os cabelos?
Essa pergunta surgiu para mim quando voltei a olhar para o seu famoso
autorretrato Autorretrato com Cabelo Cortado, de 1940.
Frida aparece sentada, vestindo um terno masculino. Seus cabelos estão cortados
e espalhados pelo chão. Ela segura uma tesoura. E, acima dela, aparece uma
frase que parece dirigir-se a alguém:
“Olha que se te amava era pelo cabelo.”
É uma imagem extremamente potente.
Porque Frida não está apenas nos mostrando um cabelo cortado.
Ela está nos mostrando um corte.
E é justamente aí que a psicanálise pode nos convidar a olhar de outra maneira.
Porque o corte, para a psicanálise, não é necessariamente apenas uma marca no
corpo. O corte pode dizer respeito à separação, à perda, àquilo que interrompe
uma continuidade e produz uma diferença.
Há um antes e um depois de um corte.
E, naquele momento da vida de Frida, havia também um antes e um depois.
Seu casamento com Diego Rivera havia chegado a uma ruptura.
E então podemos formular uma primeira hipótese:
será que o corte dos cabelos procura inscrever no corpo um corte que já havia
acontecido no campo amoroso?
Não se trata de afirmar que sabemos exatamente o que Frida quis dizer.
A psicanálise não deveria funcionar dessa maneira.
Não cabe ao analista olhar para uma obra e dizer: “isso significa isso”.
O que podemos fazer é abrir perguntas.
E talvez a pergunta mais importante seja:
o que significa cortar justamente aquilo que fazia parte da própria imagem de
feminilidade de Frida?
Porque os cabelos, para ela, não eram um detalhe qualquer.
Eles participavam de sua imagem.
As longas tranças, as flores, os vestidos, os adornos, tudo isso compunha uma
determinada representação de Frida como mulher.
E, portanto, quando ela corta os cabelos, alguma coisa dessa imagem também é
colocada em questão.
Talvez seja necessário perguntar:
que mulher está sendo cortada?
A mulher que Diego amava?
A mulher que Diego desejava?
A mulher que Frida imaginava ser para Diego?
Ou uma imagem de mulher da qual ela precisava se separar?
É aqui que Lacan pode nos ajudar.
Porque, para a psicanálise lacaniana, o sujeito não se constitui isoladamente.
Há sempre uma relação com o Outro, com o olhar do Outro, com o desejo do Outro.
Nós nos perguntamos, muitas vezes sem perceber:
O que sou para o outro?
O que o outro deseja em mim?
O que preciso ser para ser desejada?
E talvez seja justamente essa dimensão que aparece de maneira tão forte na obra
de Frida.
“Se você me amava pelo cabelo... então eu corto o cabelo.”
É quase uma provocação.
Mas também pode ser uma tentativa de separação.
Como se dissesse:
“Se é isso que me fazia ser a mulher desejada por você, então vou retirar isso
de mim.”
Mas há uma coisa curiosa.
Ela corta o cabelo, mas Diego continua presente.
Ele não aparece fisicamente na tela, mas aparece na frase.
O Outro está ali.
E isso nos leva a uma questão fundamental:
será que cortar significa necessariamente conseguir se separar?
Talvez não.
Porque podemos cortar fisicamente alguma coisa e continuar profundamente
ligados a ela.
Podemos abandonar uma relação e continuar ocupando, psiquicamente, o mesmo
lugar dentro dela.
Podemos perder alguém e continuar tentando responder à pergunta:
“O que eu fui para esse outro?”
E talvez seja justamente aí que o corte de Frida se torna tão interessante para
a psicanálise.
Porque ela não apenas corta.
Ela transforma o corte em imagem.
Ela pinta aquilo que está acontecendo.
Ela coloca o corte diante do olhar.
Ela faz do próprio corpo, da própria imagem, um lugar de inscrição de uma
experiência.
E talvez essa seja uma das grandes forças da arte de Frida Kahlo:
ela não esconde o corpo ferido.
Ela o mostra.
Ela transforma dor, perda, amor, sexualidade, feminilidade e separação em
imagens.
E, ao fazer isso, produz uma forma de simbolização.
Mas será que todo corte é simbolizado?
Essa é uma pergunta que precisamos deixar aberta.
Porque existe uma diferença entre cortar e conseguir produzir uma separação.
O corte pode ser feito no corpo.
Mas a separação subjetiva é outra coisa.
Ela exige elaboração.
Exige que alguma coisa possa mudar de lugar na relação do sujeito com o Outro.
E talvez seja por isso que o cabelo seja tão significativo nessa obra.
Porque cortar o cabelo é retirar do corpo uma parte da imagem.
É alterar aquilo que o espelho devolve.
E aqui podemos lembrar que, em Lacan, a imagem do corpo tem uma função
fundamental na constituição do sujeito.
O corpo não é apenas aquilo que temos.
Existe também o corpo que vemos, o corpo que imaginamos, o corpo que oferecemos
ao olhar do outro.
E quando essa imagem sofre um abalo, algo do narcisismo também pode ser
atingido.
Talvez Frida esteja dizendo:
“Eu posso retirar de mim aquilo que você desejava.”
Mas talvez exista ainda uma pergunta mais radical:
“Quem sou eu quando já não sou aquilo que o outro desejava que eu fosse?”
E essa pergunta nos aproxima de uma dimensão muito delicada da experiência
feminina que Lacan chamou de devastação.
A devastação não é simplesmente sofrimento.
Ela pode aparecer quando o sujeito fica capturado pela relação com o desejo do
Outro, quando aquilo que deveria sustentar uma imagem de si passa a vacilar.
E então o problema deixa de ser apenas:
“Eu perdi aquele homem.”
E passa a ser:
“O que aconteceu com aquela mulher que eu era para aquele homem?”
Talvez seja aí que o corte de Frida ganhe toda a sua potência.
Porque talvez ela não esteja simplesmente cortando os cabelos.
Talvez esteja tentando cortar um lugar.
Um lugar no desejo do Outro.
Uma identificação.
Uma imagem de feminilidade.
Uma forma de ser amada.
Ou talvez esteja tentando construir outra coisa.
E é justamente porque não podemos responder definitivamente a essa pergunta que
a obra continua nos interrogando.
O que Frida corta quando corta os cabelos?
Talvez o cabelo seja apenas aquilo que podemos ver.
O verdadeiro corte pode estar acontecendo em outro lugar.
No amor.
Na imagem.
No desejo.
Na relação com o Outro.
E talvez seja esse o ponto em que a arte e a psicanálise se encontram:
quando uma imagem consegue fazer existir uma pergunta que não se encerra em uma
resposta.
Frida corta os cabelos.
Mas a pergunta permanece.
O que ainda precisa ser cortado para que uma separação possa, finalmente,
acontecer?
Elenice Milani
Há gestos que parecem pequenos, cotidianos, quase banais. Cortar os cabelos pode ser simplesmente uma mudança de aparência. Mas há momento...
Quando o Amor toca o Impossível do Feminino
Há personagens que atravessam os séculos porque falam de algo que permanece vivo na experiência humana. Medéia é uma delas.
A tragédia escrita por Eurípides continua a nos inquietar porque não apresenta apenas uma mulher tomada pelo ódio ou pela vingança. Ela revela uma experiência subjetiva extrema, aquela em que o amor deixa de ser um lugar de encontro e passa a ocupar o espaço da devastação.
Mas o que é devastação?
Jacques Lacan utiliza esse termo para falar de uma experiência muito particular
do feminino. Não se trata simplesmente de sofrimento, abandono ou tristeza.
Toda devastação implica sofrimento, mas nem todo sofrimento é devastador.
A devastação acontece quando a relação amorosa ameaça apagar o próprio sujeito.
Quando o outro deixa de ser apenas um parceiro e passa a ocupar o lugar de tudo
aquilo que dá consistência à própria existência.
É justamente por isso que Medéia continua sendo tão atual.
Ela abandona sua pátria, rompe com sua família, trai suas origens e renuncia a
tudo em nome de Jasão. Seu desejo passa a girar completamente em torno desse
homem.
Enquanto esse amor existe, sua vida parece encontrar um sentido.
Mas quando Jasão decide abandoná-la para casar-se com outra mulher, não é
apenas um casamento que termina.
Aquilo que sustentava sua própria identidade desmorona.
É nesse ponto que podemos aproximar Medéia da noção lacaniana de devastação.
Freud nos ensinou que o amor nunca é apenas um encontro entre duas pessoas.
Amamos levando conosco nossas marcas inconscientes, nossas faltas e nossas
fantasias.
O amor sempre desperta algo que vem da nossa própria história.
Lacan radicaliza essa ideia ao afirmar que não existe uma fórmula capaz de
garantir a relação entre os sexos.
Sua famosa afirmação de que "não há relação sexual" significa
justamente que não existe uma complementaridade perfeita entre um homem e uma
mulher.
Há sempre um desencontro.
Há sempre um resto impossível de ser simbolizado.
É nesse impossível que muitas vezes a devastação encontra espaço.
Lacan afirma que, para algumas mulheres, a relação amorosa pode assumir uma
dimensão muito mais radical.
Isso não significa que todas as mulheres vivam essa experiência.
Muito menos que essa seja uma característica natural do feminino.
Trata-se de uma possibilidade estrutural.
Algumas mulheres podem investir tanto no amor que a perda do parceiro ameaça
destruir a própria imagem de si mesmas.
É exatamente isso que vemos em Medéia.
Quando Jasão a abandona, ela não perde apenas um homem.
Ela perde o lugar onde acreditava existir.
Sua dor ultrapassa o ciúme.
Ultrapassa o ressentimento.
Ela experimenta um verdadeiro colapso subjetivo.
É por isso que Lacan escolhe a palavra devastação.
A devastação não é simplesmente uma tristeza profunda.
É uma experiência em que o sujeito sente que tudo foi levado junto.
Como se restasse apenas um vazio impossível de suportar.
Nesse ponto, é importante lembrar que Lacan também fala da relação da filha com
a mãe.
Em diversos momentos de seu ensino, ele afirma que a devastação pode surgir
nessa relação primordial.
A menina dirige à mãe uma pergunta que nunca encontra resposta completa.
O que é ser uma mulher?
O que uma mulher quer?
Nenhuma mãe consegue responder plenamente a essas perguntas.
Não porque lhe falte amor, mas porque essa resposta simplesmente não existe.
O feminino guarda um ponto de mistério.
Um ponto impossível de ser totalmente representado pela linguagem.
É justamente aí que nasce uma falta que pode reaparecer mais tarde nas relações
amorosas.
Às vezes, espera-se do parceiro aquilo que nenhuma pessoa pode oferecer.
Uma garantia absoluta de existência.
Uma resposta definitiva sobre quem se é.
Quando essa resposta falha — e ela sempre falha — pode surgir a devastação.
Medéia encarna essa impossibilidade.
Ela exige de Jasão algo que homem algum poderia lhe dar.
Quando percebe que isso lhe escapa, tenta transformar sua própria dor em
destruição.
Seu ato extremo não deve ser compreendido como um modelo de comportamento, nem
como uma justificativa para a violência.
A tragédia não legitima o crime.
Ela revela até onde um sujeito pode ser levado quando perde todas as
referências simbólicas que sustentavam sua existência.
É isso que torna Medéia tão importante para a psicanálise.
Ela nos permite pensar que a devastação não nasce simplesmente da perda do
objeto amado.
Ela nasce quando toda a possibilidade de existir fica concentrada nesse objeto.
Talvez seja essa uma das maiores contribuições de Freud e Lacan para
compreendermos o amor.
O amor é indispensável.
Mas ele não pode carregar sozinho o peso da existência de um sujeito.
Quando esperamos que alguém venha preencher nossa falta de maneira definitiva,
entregamos ao outro um poder impossível de sustentar.
E é justamente desse impossível que nasce a devastação.
A psicanálise não promete eliminar a falta.
Ela nos ensina outra possibilidade.
A de construir uma relação diferente com ela.
Uma relação em que seja possível amar sem desaparecer dentro do amor.
Talvez seja essa a grande lição de Medéia.
Sua tragédia não fala apenas de uma mulher da Grécia Antiga.
Ela fala de todos os momentos em que confundimos amor com completude.
De todas as vezes em que esperamos que alguém responda àquilo que pertence ao
enigma da nossa própria existência.
A devastação nos lembra que nenhum amor consegue apagar esse enigma.
Mas talvez seja justamente quando deixamos de exigir essa resposta impossível
que o amor possa encontrar uma forma menos destrutiva de existir.
Elenice Milani
agosto 24, 2026
Há personagens que atravessam os séculos porque falam de algo que permanece vivo na experiência humana. Medéia é uma delas. A tragédia escri...
O que é a devastação na psicanálise?
A devastação (ravage) é um conceito desenvolvido por Jacques Lacan, sobretudo
no Seminário 20 – Mais, Ainda, quando aborda as fórmulas da sexuação. É nesse
contexto que ele afirma uma frase que se tornou célebre:
"Para um homem, a mulher é um sintoma; para uma mulher, o homem pode ser
uma devastação."
Mas o que Lacan quer dizer com isso?
Quando afirma que a mulher é um sintoma para um homem, Lacan indica que ela
ocupa um lugar em torno do qual se organizam seu desejo inconsciente, seu modo
de gozar e também seu sofrimento.
Já a relação de uma mulher com um homem pode tocar um ponto diferente. Ela pode
colocá-la diante de uma dimensão do gozo que não se deixa representar
completamente pela linguagem. Trata-se do chamado gozo feminino, um gozo que
excede o sentido, escapa às palavras e permanece, muitas vezes, desconhecido
até mesmo por quem o experimenta.
É nesse ponto que surge a devastação.
A devastação não é simplesmente uma decepção amorosa, um abandono ou um
sofrimento intenso. Ela acontece quando uma experiência rompe as referências
simbólicas que sustentavam o sujeito, produzindo um abalo na própria
consistência da identidade. É um encontro com aquilo que não encontra palavras
suficientes para ser dito.
Para pensar essa experiência, Lacan recorre à literatura, especialmente ao
romance O Arrebatamento de Lol V. Stein, de Marguerite Duras.
Na história, Lol presencia o instante em que seu noivo a abandona durante um
baile para seguir outra mulher. Diante dessa cena, ela permanece imóvel, como
se algo tivesse escapado completamente ao campo da significação. O
acontecimento não é apenas uma perda amorosa: ele produz um furo na linguagem,
uma experiência impossível de simbolizar plenamente.
Na clínica, a devastação pode aparecer como um sofrimento marcado pelo vazio,
pela solidão, pela perda das referências, pela dificuldade de dizer o que
aconteceu e pela repetição insistente de experiências semelhantes.
Lacan também aproxima a devastação da relação primordial entre mãe e filha. Não
se trata de responsabilizar a mãe, mas de reconhecer que esse primeiro encontro
coloca a menina diante de uma mulher que também é atravessada por suas faltas,
seus desejos e seus impasses. Muitas vezes, aquilo que mais tarde aparece nas
relações amorosas já estava inscrito, de alguma maneira, nessa relação
primeira.
Freud já havia percebido a importância desse vínculo ao afirmar que a relação
com a mãe exerce profunda influência sobre as futuras escolhas amorosas da
mulher.
Outro aspecto fundamental da devastação é sua relação com a queda dos
semblantes.
Enquanto as imagens que sustentam nossa identidade permanecem de pé, a
realidade parece organizada. A devastação acontece justamente quando esses
semblantes desmoronam. Caem as identificações, as certezas e as ilusões,
revelando um ponto do feminino que não pode ser totalmente representado nem
recoberto pelo sentido.
Por isso, a devastação tem a estrutura de um abismo. Ela não se resolve apenas
pela compreensão intelectual, nem desaparece porque alguém explica o que
aconteceu. O trabalho analítico consiste em construir, pouco a pouco, palavras
para aquilo que inicialmente parecia impossível de simbolizar.
É justamente por isso que o cinema se torna um campo tão fértil para pensar
esse conceito. Muitas vezes, aquilo que escapa à linguagem pode ser mostrado
por uma imagem, um silêncio, um gesto ou um olhar.
É o que encontramos em A Professora de Piano. Erika Kohut não vive apenas um
amor frustrado. Sua relação com a mãe, marcada por invasão, controle e ausência
de separação subjetiva, já anuncia uma devastação anterior ao encontro amoroso.
Quando Walter entra em sua vida, ele não cria essa devastação, mas faz emergir
aquilo que já habitava sua estrutura psíquica. O filme mostra, com
impressionante delicadeza e violência, a queda dos semblantes, o fracasso das
identificações e o encontro da personagem com um gozo que ultrapassa qualquer
possibilidade de representação.
Haneke não explica a devastação; ele a faz existir diante dos nossos olhos. É
justamente nesse ponto que o cinema e a psicanálise se encontram: ambos nos
colocam diante daquilo que resiste às palavras, mas insiste em se mostrar.
Talvez essa seja uma das maiores contribuições de Lacan: mostrar que existe um
sofrimento que não nasce apenas da perda do objeto amado, mas do encontro com
um ponto de gozo que excede o sentido. A psicanálise não promete eliminar esse
impossível. Ela oferece, porém, a possibilidade de que cada sujeito encontre
uma forma singular de fazer algo com aquilo que, um dia, se apresentou como
devastação.
Elenice Milani
Clique para assistir ao vídeo no Youtube
julho 20, 2026
A devastação (ravage) é um conceito desenvolvido por Jacques Lacan, sobretudo no Seminário 20 – Mais, Ainda, quando aborda as fórmulas da ...
Quando a justiça vira espetáculo?
Quando a justiça vira espetáculo?
Essa talvez seja a pergunta mais inquietante deixada pelos
filmes sobre o Julgamento de Nuremberg.
Muitos já foram feitos sobre esse tema. Existe o clássico de
1961, considerado até hoje um dos mais importantes do cinema jurídico e
político. Mas o que mais me interessa não é apenas a reconstrução histórica do
tribunal. O que me inquieta é outra coisa.
Quando a Segunda Guerra terminou, o mundo estava diante de um horror impossível de dimensionar. Campos de concentração, milhões de mortos, cidades destruídas, uma humanidade emocionalmente devastada. E talvez, naquele momento, o mundo não estivesse procurando exatamente justiça. Talvez estivesse procurando uma resposta rápida para o trauma. Talvez estivesse procurando vingança.
O Tribunal de Nuremberg nasce então dentro dessa tensão. E os filmes mais inteligentes sobre Nuremberg mostram justamente isso: o julgamento não aparece como algo limpo, simples ou moralmente confortável. Pelo contrário. O tribunal surge como um grande experimento político, jurídico e simbólico criado enquanto o mundo ainda estava em ruínas.
Porque Nuremberg nunca foi apenas um tribunal. Nuremberg também foi um palco mundial. A imprensa acompanhava tudo. As câmeras estavam ligadas. Os governos pressionavam. O mundo inteiro observava cada palavra. A justiça precisava funcionar. Mas mais do que isso: precisava ser vista funcionando.
E é exatamente nesse ponto que os filmes começam a provocar desconforto. Porque ao dar voz aos líderes nazistas, o julgamento também abriu espaço para algo profundamente perturbador: o carisma do mal. Especialmente no caso de Hermann Göring.
Göring não aparece apenas como um monstro distante da
humanidade. Ele surge como um homem inteligente, articulado, estrategista,
seguro de si e plenamente consciente de que disputava não apenas uma sentença
judicial, mas também a narrativa da própria história.
E talvez seja exatamente aí que nasce uma das perguntas mais difíceis do filme: se o mal sabe falar bem… ainda conseguimos reconhecê-lo como mal? Essa questão é profundamente atual. Porque o horror nem sempre se apresenta de forma grotesca. Às vezes ele aparece através da inteligência, da eloquência, da racionalidade e até do carisma.
Outro ponto extremamente forte nos filmes sobre Nuremberg é a manipulação psicológica. Em teoria, os criminosos estão sendo observados, analisados e estudados. Mas em vários momentos a sensação é de que o jogo começa a se inverter. O observador também vira alvo.
A ciência tenta compreender o horror humano, mas corre permanentemente o risco de normalizá-lo. E talvez seja justamente aí que surge a pergunta mais dura de todas: quando a justiça vira espetáculo… ela continua sendo justiça?
Porque os filmes sobre Nuremberg não questionam a culpa dos réus. Isso nunca esteve em dúvida. O que eles questionam é algo muito mais delicado: será que o espetáculo do julgamento também serviu para tranquilizar rapidamente a consciência do mundo?
Como se fosse necessário produzir uma resposta pública,
organizada e simbólica para que a humanidade pudesse seguir em frente depois do
horror.
Talvez o Julgamento de Nuremberg tenha sido absolutamente necessário. Mas necessário não significa neutro. Não significa puro. E muito menos inocente.
E talvez seja exatamente por isso que esses filmes continuam tão importantes hoje. Porque eles falam muito mais sobre o nosso presente do que apenas sobre o passado.
Vivemos numa época em que julgamentos acontecem diante das
câmeras, das redes sociais e da pressão da opinião pública. Tudo precisa ser
imediato. Tudo precisa produzir uma resposta rápida.
Mas justiça não deveria ser espetáculo. Nesse ponto, é impossível não lembrar de sua reflexão sobre a “Banalidade do Mal”. Hannah Arendt percebeu algo fundamental ao acompanhar os desdobramentos do nazismo: o horror nem sempre nasce de figuras monstruosas. Muitas vezes ele aparece através de pessoas comuns, obedientes, burocráticas e perfeitamente adaptadas ao funcionamento do sistema.
E também é impossível não lembrar do texto de 1930, O
Mal-Estar na Civilização, Sigmund Freud nos lembra que a violência e a barbárie
não são acidentes externos à humanidade. Elas fazem parte da própria condição
humana.
Talvez seja por isso que Nuremberg continue nos perturbando tanto até hoje. Porque no fundo ele não fala apenas sobre os nazistas. Ele fala sobre o homem. E sobre aquilo que existe de mais inquietante na própria civilização. Como dizia Thomas Hobes, “O homem é o lobo do homem.”
Elenice Milani
Quando a justiça vira espetáculo? Essa talvez seja a pergunta mais inquietante deixada pelos filmes sobre o Julgamento de Nuremberg. M...
Bloomsday - Uma homenagem a grande obra de James Joyce
Bloomsday 2026: uma celebração da literatura e da
experiência humana.
No dia 16 de junho, leitores de todo o mundo celebram o Bloomsday, uma
homenagem ao escritor irlandês James Joyce e ao seu monumental romance Ulisses,
publicado em 1922 e considerado uma das maiores obras da literatura moderna.
A data não foi escolhida por acaso. Toda a narrativa de Ulisses acontece em um
único dia: 16 de junho de 1904. Foi também nesse dia que James Joyce teve seu
primeiro encontro amoroso com Nora Barnacle, companheira que marcaria
profundamente sua vida e sua obra.
Em Ulisses, Joyce realiza uma extraordinária adaptação da Odisseia de Homero. A
longa viagem do herói Odisseu em seu retorno para Ítaca é recriada na figura de
Leopold Bloom, um simples agente de publicidade que percorre as ruas de Dublin
durante dezoito horas e o início da madrugada seguinte.
Mas a grande genialidade de Joyce está justamente em transformar o cotidiano em
uma epopeia moderna. Os antigos heróis da mitologia dão lugar a pessoas comuns,
e os grandes feitos são substituídos pelas pequenas experiências que compõem a
vida humana.
Leopold Bloom é um homem comum e, exatamente por isso, torna-se universal. Nele
encontramos a força e a fragilidade, a coragem e o medo, a lucidez e a dúvida
que habitam cada ser humano. Muitos críticos o consideram o grande herói
trágico da literatura moderna.
Ao acompanhar os pensamentos, encontros, lembranças e inquietações de seus
personagens, Joyce cria um verdadeiro microcosmo da experiência humana. Dublin
torna-se o cenário onde se desenrolam questões fundamentais da existência: o
amor, a perda, o desejo, a memória, a solidão e a busca de sentido.
A obra também revolucionou a literatura por meio da técnica conhecida como
fluxo de consciência, uma forma de escrita que procura registrar os pensamentos
tal como eles surgem na mente, sem obedecer necessariamente à lógica ou à ordem
narrativa tradicional. Dessa forma, o leitor é conduzido para o interior da
experiência subjetiva dos personagens.
Não por acaso, Ulisses é considerado um dos livros mais importantes do século
XX. Sua riqueza literária, suas inúmeras referências à mitologia, à Bíblia, a
Shakespeare e a diversos outros textos transformam a leitura em uma experiência
única e desafiadora.
A importância de Ulisses ultrapassa os limites da crítica literária e alcança
também a psicanálise. Reconhecendo a singularidade da escrita de James Joyce e
seus efeitos sobre a subjetividade, o psicanalista francês Jacques Lacan
dedicou a ele o seu Seminário 23 – O Sinthoma. Nesse seminário, Lacan investiga
a obra joyceana como uma invenção singular, capaz de sustentar uma forma
própria de amarração entre o sujeito, a linguagem e o mundo. Mais do que um
escritor revolucionário, Joyce torna-se, para Lacan, uma referência fundamental
para pensar as relações entre linguagem, criação artística e constituição
subjetiva. Em uma de suas formulações mais conhecidas, Lacan chega a afirmar
que Joyce fez de sua obra um sinthoma, uma solução singular que lhe permitiu
sustentar sua existência e seu lugar no mundo.
Todos os anos, em Dublin, milhares de pessoas celebram o Bloomsday percorrendo
os mesmos lugares visitados por Leopold Bloom. Vestem roupas de época, realizam
leituras públicas, encenam passagens do romance e até reproduzem refeições
descritas no livro. A celebração ultrapassou as fronteiras da Irlanda e hoje
acontece em diversas cidades do mundo, inclusive no Brasil.
O Bloomsday é uma rara celebração dedicada não apenas a um escritor, mas também
a um personagem literário. É o reconhecimento de que a literatura tem a
capacidade de transformar um único dia comum em um retrato da condição humana.
Mais de um século depois de sua publicação, Ulisses continua nos lembrando que
as grandes jornadas não acontecem apenas nos mares e nos campos de batalha.
Elas acontecem também nas ruas que percorremos todos os dias, nos encontros que
vivemos, nas memórias que carregamos e nos pensamentos que silenciosamente nos
habitam.
Celebrar o Bloomsday é, portanto, celebrar a literatura, a imaginação e a
extraordinária aventura de ser humano. É também reconhecer que a escrita de
James Joyce continua viva, inspirando leitores, escritores, filósofos e
psicanalistas a explorar os mistérios da linguagem e da experiência humana.
Que neste 16 de junho de 2026 possamos, à maneira de Leopold Bloom, percorrer
os caminhos do cotidiano com um olhar atento ao extraordinário que se esconde
nas coisas mais simples da vida.
Essa versão encerra a homenagem de forma mais poética e faz uma bela
articulação entre Homero, Joyce, Bloom e Lacan, algo que certamente dialogará
muito bem com um público interessado em literatura, filosofia e
psicanálise.
Elenice Milani
Bloomsday 2026: uma celebração da literatura e da experiência humana. No dia 16 de junho, leitores de todo o mundo celebram o Bloomsday, ...
O Impossível do Amor
O que pode um amor que não aceita limites?
Quando nos aproximamos de sua obra, não estamos diante de uma simples narrativa romântica. Estamos diante de uma experiência radical do desejo. Emily escreve a partir de um lugar muito singular. Uma vida marcada pelo isolamento, pelo silêncio e por uma intensa relação com a natureza. Mas esse isolamento não empobrece sua obra — ao contrário, ele a radicaliza. É como se, afastada do ruído social, ela pudesse escutar algo mais primitivo, mais essencial: aquilo que em nós escapa à linguagem organizada.
E é exatamente isso que encontramos em sua escrita. O romance nos apresenta Heathcliff e Catherine. Mas reduzi-los a personagens apaixonados é perder o essencial. O que está em jogo ali não é o amor enquanto vínculo social, mas o amor enquanto experiência de desmedida.
Quando Catherine diz: “eu sou Heathcliff”, ela não está fazendo uma declaração afetiva. Ela está tocando algo da ordem da identidade. Algo que, para a psicanálise, é profundamente inquietante. Porque o sujeito, tal como nos ensina , só se constitui a partir da falta. Não somos inteiros. Não somos completos. Somos atravessados por uma divisão estrutural.
E é justamente essa falta que nos faz desejar. Mas o que vemos em Catherine e Heathcliff é uma recusa dessa falta. Eles não querem desejar. Eles querem ser. Querem uma fusão impossível. Querem abolir a distância que funda o sujeito.
E é aí que o amor se torna devastador. Porque quando o outro deixa de ser um outro — separado, diferente — e passa a ser vivido como parte de si, o que está em jogo não é mais o encontro, mas a aniquilação. Amar, nesse nível, não é construir. É perder-se.
Heathcliff encarna algo muito próximo do que poderíamos chamar, em termos freudianos, de uma fixação pulsional que não encontra simbolização. Seu desejo não se desloca, não se transforma, não se sublima. Ele insiste. Mesmo após a morte de Catherine, ele continua preso a essa relação. Não há elaboração do luto. Não há renúncia. Há repetição. E aqui podemos evocar , quando nos fala da compulsão à repetição: essa tendência do sujeito a retornar sempre ao mesmo ponto de dor, como se algo não pudesse ser simbolizado e, por isso, precisasse ser revivido.
Heathcliff não consegue perder Catherine. E justamente por isso, não consegue viver. Já Catherine encarna o sujeito dividido. Ela ama Heathcliff, mas escolhe se casar com Edgar Linton. Por quê? Porque há nela um conflito entre o desejo e a ordem simbólica. Entre aquilo que a move internamente e aquilo que o laço social exige. Ela tenta conciliar esses dois mundos. Mas essa tentativa fracassa. E fracassa porque há algo do desejo que não se domestica.
A escolha de Catherine revela algo muito importante: o sujeito pode até se submeter às normas, mas o desejo não desaparece. Ele retorna. E, muitas vezes, retorna de forma sintomática, disruptiva, até mesmo destrutiva. O amor entre Heathcliff e Catherine não é um amor possível. E talvez seja justamente por isso que ele seja tão fascinante. Porque ele toca em algo que todos nós, em algum nível, experimentamos: o desejo de um encontro absoluto.
Um encontro sem falta. Sem distância. Sem perda. Mas esse encontro não existe. E a psicanálise insiste nisso: amar implica aceitar a falta. Aceitar que o outro nunca será totalmente acessível. Aceitar que há sempre um resto, um impossível.
Emily Brontë, de alguma forma, escreve esse impossível. Ela não tenta organizá-lo. Não tenta moralizá-lo. Não tenta explicá-lo. Ela nos coloca diante dele. E talvez seja por isso que sua obra tenha causado tanto escândalo em sua época. O público vitoriano esperava uma narrativa que reafirmasse valores, que organizasse o mundo. Mas Emily faz o contrário.
Ela desorganiza. Ela nos mostra personagens que não pedem desculpas por sua intensidade, que não se adaptam, que não encontram redenção. E, ao fazer isso, ela antecipa algo que só mais tarde será formalizado pela psicanálise: a ide.
Elenice Milani
junho 08, 2026O que pode um amor que não aceita limites? Quando nos aproximamos de sua obra, não estamos diante de uma simples narrativa romântica. Es...
A Herança do Silêncio
Hoje eu queria falar de um filme que não se assiste com pressa. Um filme que pede silêncio. Pede tempo. E pede disponibilidade psíquica.
Valor Sentimental, do Joachim Trier, é um desses filmes. Não é um filme de grandes acontecimentos. É um filme de pequenas cenas… mas de afetos muito grandes. E talvez por isso ele incomode tanto.
A gente vive numa lógica de velocidade. Tudo precisa fazer sentido rápido. Tudo precisa explicar, concluir, resolver. Aqui, não.
O filme demora. As cenas se estendem. Os personagens não explicam tudo o tempo todo. E isso não é falha de roteiro. É proposta.
Porque, na vida psíquica, quase nada é dito de forma direta.
Essa família é atravessada por algo que nunca foi colocado em palavras. Lutos que não foram elaborados. Dores que foram empurradas para debaixo do tapete. Sentimentos que não encontraram escuta.
E quando algo não é simbolizado, ele retorna. Retorna como sintoma. Como repetição. Como mal-estar.
O filme inteiro é atravessado por esse não-dito. E talvez o que mais incomode seja justamente isso: a gente reconhece algo ali.
As filhas herdam algo que não viveram diretamente. Elas não viveram a guerra. Não viveram a depressão da avó. Mas vivem os efeitos disso no corpo e nos vínculos.
Isso é herança psíquica. A gente não herda só bens. A gente herda silêncios. Modos de amar. Modos de se defender.
Mas o filme é muito cuidadoso em mostrar algo essencial: Repetir não é estar condenado. Existe repetição, sim. Mas existe também a possibilidade de fazer algo diferente com isso.
E essa diferença nunca é total. Ela é parcial. Imperfeita. Mas é possível.
Gustav é um homem atravessado pela dor. Ele cresceu vendo uma mãe devastada por um trauma que nunca encontrou palavra.
O cinema vira, para ele, uma saída. Um lugar onde ele consegue organizar o caos. Dar forma ao que ficou fragmentado. Mas também vira um refúgio.
Ele sabe criar histórias… mas não sabe sustentar presença.
E aqui entra algo muito importante para a psicanálise.
O pai, especialmente em Lacan, nunca é o pai ideal. Nunca é completo. Nunca é aquele que garante tudo.
O pai é sempre falho. E isso não é um defeito moral. É uma condição estrutural.
Se o pai fosse todo-poderoso, não haveria espaço para o desejo do filho ou da filha. É justamente a falha do pai que introduz a falta. E é essa falta que permite ao sujeito existir.
No filme, Gustav falha. Falha como pai, falha como presença, falha como suporte afetivo. Mas ele também herdou uma falha. Ele também é efeito de uma história marcada pelo trauma e pelo silêncio.
Ninguém ali é vilão. São sujeitos tentando amar a partir das próprias faltas.
E então chegamos a Nora.
Quando Gustav a convida para protagonizar o filme, algo muito delicado acontece. Existe ali uma tentativa de aproximação. Mas também uma captura.
Como se ele dissesse, sem dizer: “me ajuda a organizar quem eu sou”.
E aqui entra uma imagem muito forte do filme: os rostos. Há momentos em que o rosto do pai e o da filha parecem quase se confundir. Como se um estivesse inscrito no outro.
Isso é muito potente. Porque o cinema, dentro do próprio filme, funciona como máscara. Como persona.
Não no sentido de falsidade. Mas no sentido de revestimento. De forma.
A máscara não apenas esconde. Ela revela.
Quando Gustav transforma a própria história em filme, ele está tentando organizar a memória. Criar uma narrativa para aquilo que, na vida, ficou disperso.
Mas quando ele quer que Nora encarne essa história, os rostos quase se fundem. Como se ele buscasse no rosto da filha uma continuação de si. Como se ela pudesse elaborar o que ele não conseguiu.
E então surge a pergunta essencial: Onde termina o pai e começa a filha?
Na transmissão psíquica, existe sempre o risco da fusão imaginária. E é por isso que a separação é fundamental.
Quando Nora recusa o papel, ela não está apenas recusando um trabalho. Ela está tentando não ser engolida pela história do pai.
É um “não” que introduz um corte. E, paradoxalmente, é ela quem encarna ali a função que separa.
Porque a função paterna, na psicanálise, não está presa ao pai biológico. Ela é a função que introduz limite.
E às vezes quem realiza esse corte não é o pai. É o filho.
Mesmo assim, Nora repete algo do pai. Ela também se entrega intensamente ao trabalho. Também transforma a arte em sustentação.
A repetição nunca é idêntica. Ela carrega algo do passado, mas sempre com uma torção.
E é nessa torção que mora a possibilidade de diferença.
Agnes ocupa outro lugar. Ela tenta construir algo mais estável. Forma uma família. Tenta não transmitir o trauma adiante.
Mas isso não significa ausência de sofrimento. Significa outra forma de lidar com ele.
O filme é honesto nisso: ninguém sai ileso de uma história familiar.
A casa também é um personagem. Ela guarda rachaduras. Memórias. Marcas do tempo. É quase um corpo.
E como todo corpo, envelhece, se desgasta… mas pode ser cuidado.
Nada garante que o passado desapareça. Mas algo pode ser reorganizado.
Cinema e teatro aparecem como tentativas de simbolizar o excesso. Não como cura. Mas como forma de não ser esmagado pelo que não tem nome.
Transformar a dor em narrativa pode ser elaboração. Mas também pode ser defesa.
O filme sustenta essa ambiguidade com muita delicadeza.
No fim, Valor Sentimental não é um filme sobre vilões e vítimas. É um filme sobre pessoas falhas.
E talvez seja isso que mais doa.
Não houve ausência de amor. Houve ausência de palavra.
Olhar para a falha não destrói. O que destrói é fingir que ela não existe.
E talvez o verdadeiro valor sentimental não esteja em repetir fielmente o passado. Mas em introduzir uma diferença.
Mesmo pequena. Mesmo imperfeita. Mesmo tardia.
Porque um pai todo-poderoso aprisiona. Um pai falho possibilita.
E é dessa falha que algo novo pode nascer.
Elenice Milani.
Vídeo no Youtube (Clique aqui)
junho 01, 2026
Hoje eu queria falar de um filme que não se assiste com pressa. Um filme que pede silêncio. Pede tempo. E pede disponibilidade psíquica. Va...
Agende uma consulta
Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta. - Carl Jung
Agende uma consulta presencial ou online comigo, clique aqui.

