A Alienação do Desejo (Um Amor de Swann - 1984)
O filme Um Amor de Swann (1984), dirigido por Volker Schlöndorff, é uma adaptação justamente dessa parte de Em Busca do Tempo Perdido. Ele traz à tela, de forma visual e dramática, aquilo que Proust descreve com tanta minúcia: a paixão de Swan por Odete.
O filme de Schlöndorff mostra com imagens aquilo que Proust nos entrega pela palavra: a construção imaginária que Swann faz de Odette. Ele a transforma em objeto absoluto de desejo, projetando nela a nostalgia do “objeto perdido” de que fala Freud.
Cada gesto dela ganha um peso excessivo. Cada ausência, um motivo para suspeita. O ciúme, então, aparece como sombra inseparável do amor — até o ponto em que Swann não consegue mais distinguir entre realidade e fantasia.
A cena em que ele se coloca sob a janela, alucinado, acreditando ouvir a traição de Odette, é um retrato cinematográfico daquilo que Lacan chama de alienação no desejo: o sujeito não encontra o objeto em si, mas se perde no labirinto de suas próprias suposições.
No fim, assim como no livro, Swann descobre que o grande amor de sua vida não passava de uma ilusão. A frase célebre — “E dizer que desperdicei anos de minha vida…” — ecoa como uma revelação amarga: não é apenas o fim de uma paixão, mas a constatação da impossibilidade de reencontrar o objeto perdido.
O cinema, nesse caso, nos dá a possibilidade de ver e sentir a fragilidade humana diante do desejo, algo que a psicanálise nos ajuda a pensar: o amor muitas vezes se confunde com a tentativa impossível de colar a falta.
Elenice Milani.



0 comments: