A Armadilha do Desejo (Retrato de Uma Mulher - 1997)
Isabel Archer, em "Retrato de uma Mulher”, não é apenas uma jovem americana perdida nas intrigas da Europa. Ela é o retrato de como o sujeito, ao escolher, se prende na própria armadilha do desejo.
Henry James constrói uma Isabel movida pelo idealismo: recusa Warburton e sua segurança porque busca algo maior, mais elevado. Mas como nos lembra a psicanálise: não escolhemos com a razão, mas com o inconsciente. Isabel se casa com Osmond porque nele projeta o ideal de grandeza, mas encontra apenas o vazio.
Muitas vezes ouço na clínica: “Tenho um dedo podre para relacionamentos”. Freud nos lembra: não é o dedo que é podre. É o sintoma que insiste em se alimentar das mesmas escolhas. Isabel não foi enganada apenas por Osmond, mas pelo próprio desejo que a levou a repetir o engano.
Lacan dizia: “O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer.” Isabel deu tudo a Osmond, e recebeu nada em troca. Mas não porque foi ingênua, e sim porque o amor sempre passa pela falta.
E aqui entra Jane Campion. Ao adaptar o romance, a diretora não quis apenas traduzir James, mas interpretá-lo sob uma lente contemporânea e feminista. Sua Isabel não aparece mais como heroína trágica que ousa escolher — mas como uma mulher que se deixa capturar por uma posição masoquista. A heroína de James vira vítima no cinema.
Do ponto de vista psicanalítico, essa mudança é crucial: Em James, Isabel é trágica porque erra a partir da liberdade. Em Campion, Isabel é trágica porque sofre a partir da submissão.
A psicanálise nos ensina: não existe escolha sem perda. Mas existe diferença entre ser sujeito da própria perda ou se deixar capturar como objeto do outro.
Isabel, em James, erra porque deseja. Isabel, em Campion, sofre porque se entrega.
Essa diferença nos provoca a pensar: quantas vezes nossas histórias de amor ficam aprisionadas na chave da vítima, quando na verdade são fruto da nossa fidelidade inconsciente ao sintomas? Não é o dedo que é podre: é o sintoma que insiste em escolher por nós.
No amor, repetimos mais do que escolhemos. O inconsciente não busca felicidade: busca satisfação.
Em James, Isabel é trágica porque ousa; em Campion, porque se submete. Toda escolha amorosa é também uma escolha inconsciente.
Elenice Milani.



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