O desejo, a beleza e a decadência

Matheus Kramer Margarida

 


"Morte em Veneza” é mais do que um filme sobre paixão e morte. É um retrato profundo da alma humana diante da passagem do tempo, da beleza e da inevitável decadência. Gustav von Aschenbach, o compositor, é um homem que viveu toda a vida sob o signo do controle. Um artista disciplinado, que transformou a razão em sua fortaleza. Mas como toda fortaleza, ela também é uma prisão.

Quando ele chega a Veneza, o que encontra não é apenas uma cidade — é o espelho de si mesmo. Veneza é bela, mas está doente. Cheia de máscaras, de odores e de silêncios. Assim como ele: belo, refinado, mas corroído por dentro. A cidade, tomada pela cólera, tenta esconder sua decadência — e Aschenbach faz o mesmo com o próprio corpo, com o próprio envelhecimento. O pó de arroz, a tintura nos cabelos, o disfarce diante do espelho… Tudo isso revela a luta de um homem contra a queda de sua imagem, contra a ferida narcísica de não ser mais o ideal que um dia acreditou ser.

E então aparece Tadzio. Um jovem, quase uma aparição. Tadzio encarna o que os gregos chamavam de kallos — a beleza pura, ideal, intocável. É o espelho invertido do que Aschenbach perdeu: a juventude, o frescor, o brilho que o tempo já levou. Mas o que o atrai em Tadzio não é apenas o desejo — é o fascínio por uma perfeição que escapa ao humano. É o desejo de reaver o que o tempo roubou, de tocar o que já não se pode possuir.

Freud dizia que o amor, quando passa pelo narcisismo, busca no outro a imagem idealizada de si mesmo. É o “eu ideal” projetado no outro. E Aschenbach vê em Tadzio exatamente isso: a juventude perdida, a beleza inatingível, o reflexo do que ele foi ou sonhou ser. Mas o desejo, quando nasce do espelho, é sempre trágico. Porque ao se aproximar do ideal, o sujeito se dissolve. Assim, a paixão de Aschenbach não é apenas amor — é autodestruição.

Cada olhar para Tadzio é um golpe em seu narcisismo envelhecido, é o desmoronar de sua ilusão de controle. A pulsão de vida e a pulsão de morte se confundem, e o artista vai se entregando lentamente ao colapso de sua própria forma.

A música de Mahler atravessa o filme como um suspiro da alma. Ela não apenas acompanha, mas traduz o que não pode ser dito: o desejo reprimido, o tempo que passa, o peso do ideal estético.

Veneza, ao mesmo tempo esplêndida e decadente, é a encenação perfeita da psique de Aschenbach — um lugar onde a beleza e a decomposição caminham juntas. E talvez seja essa a grande verdade que o filme revela: que o humano é feito dessa mistura entre o sublime e o abjeto, entre o desejo e o limite.

No fim, Aschenbach morre diante do mar. O corpo cai, mas o olhar permanece fixo em Tadzio — esse olhar que tenta eternizar o impossível. A morte, aqui, não é castigo. É rendição. É a entrega do controle à força do desejo. É o reconhecimento de que a beleza que buscamos não é deste mundo.

Luchino Visconti transforma essa travessia psíquica em uma experiência visual e sonora que toca o inconsciente. Thomas Mann, por sua vez, já havia intuído o mesmo: que o artista, ao perseguir o ideal de beleza, toca o limite da própria sanidade. A arte, às vezes, é o caminho da destruição. Mas talvez haja, nesse fim trágico, uma forma de redenção: a de aceitar o envelhecimento, a perda, a queda — e reconhecer que a beleza não está na perfeição, mas no próprio ato de desejar. Porque desejar é estar vivo. E é nesse instante — entre o desejo e a perda — que o humano se revela.

“Morte em Veneza” é o espelho onde o artista se vê ruir… mas também onde o humano, enfim, se reconhece.

Elenice Milani.

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