O Deslocamento do Feminino no Tempo

Matheus Kramer Margarida


O filme As Horas é inspirado no romance homônimo de Michael Cunningham, que por sua vez se constrói a partir da obra Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf.

O livro e o filme costuram três histórias de mulheres em épocas diferentes — todas atravessadas por uma mesma sensação: a de não caber na vida que vivem.

A escritora Virginia Woolf, nos anos 20, luta para escrever e resistir à sua dor psíquica. Laura Brown, nos anos 50, lê Mrs. Dalloway e se vê à beira do colapso, engolida pelo ideal da dona de casa perfeita. Já nos anos 2000, Clarissa Vaughan vive a liberdade moderna — mas continua presa à expectativa de cuidar de todos, menos de si mesma.

Em todas elas, o tempo é mais do que relógio. O tempo é o que pesa. O que aprisiona. O que sufoca.

E aqui entra a leitura psicanalítica, a partir do livro Deslocamento do Feminino, de Maria Rita Kehl.

Kehl mostra como, historicamente, o tempo da mulher sempre foi o tempo do Outro: o tempo do marido, dos filhos, da casa, da espera, da obediência.

Quando uma mulher tenta sair desse tempo, ela encontra resistência — da cultura, da moral, da culpa. E também de si mesma.

A psicanálise nos ajuda a escutar esse incômodo: o mal-estar que aparece quando a mulher percebe que vive num tempo que não é seu.

O feminino, para a psicanálise, não é um papel pronto, nem um ideal a ser alcançado. É aquilo que escapa. Que transborda. Que insiste, mesmo quando não encontra palavras.

Virginia escreve para suportar o que não cabe nela. Laura abandona o lar para salvar a si mesma. Clarissa precisa perder — para finalmente se reencontrar.

As Horas nos lembra que o tempo da mulher não pode continuar sendo o tempo do sacrifício.

Como diz Lacan, “o desejo é atemporal.” Quando uma mulher escuta o seu desejo — ela não só muda sua vida. Ela muda o tempo.

Elenice Milani.

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