A Travessia do Luto

Matheus Kramer Margarida

 

A amizade entre Martha e Ingrid não é apenas um vínculo afetivo. Ela funciona como uma espécie de processo terapêutico. Uma escuta a dor e acolhe os medos da outra. E, juntas, elas criam um espaço onde o sofrimento pode ser simbolizado. Esse gesto de acolher o indizível — aquilo que não encontra palavras — é fundamental.

O espaço entre as duas mulheres vira um lugar de elaboração psíquica, de transformação. É o momento em que a dor deixa de ser um peso solitário e se torna uma travessia dividida.

A ideia do “quarto ao lado” tem um peso simbólico enorme. É o lugar onde a morte acontece — mas também é o lugar onde a vida é pensada com mais lucidez. O filme nos convida a observar como cada personagem lida com a finitude.

Para quem está morrendo, há um desejo de controle, de autonomia, de dignidade. Para quem acompanha, há o desafio emocional do luto antecipatório. Almodóvar nos lembra que o luto não começa somente quando alguém morre. Ele começa no instante em que reconhecemos a perda que se aproxima. Freud já dizia que o luto é um processo necessário, uma retirada gradual de libido investida naquele objeto amado. Mas quando esse processo falha, abre-se a porta para a melancolia — esse estado em que o sujeito se identifica com o objeto perdido e passa a se depreciar junto com ele. O filme trabalha exatamente essa linha delicada:

como elaborar a perda sem colapsar junto com ela.

O Quarto ao Lado traz a eutanásia como tema central. O filme nos leva a perguntar sobre o direito do sujeito de decidir o próprio destino. A autonomia aparece como um movimento profundamente humano. Ferido, limitado, diante da morte iminente, o sujeito busca ainda assim afirmar seu desejo. E a ética almodovariana, que sempre esteve ligada à liberdade e à verdade interna dos personagens, se revela nesse gesto. Essa autonomia toca o ponto do desejo do sujeito — aquilo que Lacan aponta como irredutível, aquilo que ninguém pode assumir em nosso lugar. Há algo de radical nesse movimento: decidir o final da própria história é decidir também sobre o lugar que o Outro ocupa na sua vida.

O filme é repleto de ternura nos mostrando que o afeto é o que sustenta o sujeito na travessia da dor. Nenhuma das personagens está totalmente só. E isso está profundamente alinhado à psicanálise. O sujeito se constitui no laço com o outro. E é no encontro que a dor ganha forma, palavra e sentido. Marta e Ingrid representam duas mulheres que, mesmo em situações totalmente diferentes, encontram na relação o apoio necessário para seguir. É a amizade, e não a doença, que dá tom ao filme.

Um dos pontos mais belos da história é como cada personagem reconstrói sua identidade diante da morte. A memória aparece como uma costura:

uma tentativa de dar forma ao que fomos, ao que somos e ao que deixaremos. O que valeu a pena? O que deixei incompleto? Quem fui para os outros? E, principalmente: quem ainda posso ser diante do pouco tempo que resta? Esse processo lembra o que Freud chamava de “trabalho da rememoração”, e o que Lacan, mais tarde, conecta à escrita do sujeito no simbólico. É aí que entra o objeto a: aquilo que falta, aquilo que move, aquilo que nunca se completa. A morte torna essa falta ainda mais evidente. O Quarto ao Lado é inspirado no livro de Sigrid Nunez, What Are You Going Through. E Almodóvar consegue traduzir essa obra literária com uma sensibilidade estética única.

Sua referência a Edward Hopper está presente nos enquadramentos, nas cores vibrantes que contrastam com a gravidade do tema. Esse contraste cria uma sensação de beleza dentro da dor. Damian, o ex-amante insaciável, é um personagem que adiciona nuances de desejo, sexualidade e memória, oferecendo mais uma camada para pensar o feminino e suas relações de poder e afeto. A cena que cita “Os Vivos e os Mortos” traz uma reflexão poética sobre o que permanece e o que se perde — uma ponte perfeita com o tema do filme.

Por trás de toda essa trama, O Quarto ao Lado nos oferece um verdadeiro laboratório psíquico: o luto como travessia; a melancolia como risco; o objeto a como falta que estrutura; e a falta no Outro, tão central em Lacan, aparecendo como limite da vida, do amor e do desejo. O filme é, acima de tudo, sobre o sujeito diante do impossível. Sobre como cada um de nós tenta viver, desejar e significar o que resta — mesmo quando o tempo é curto, mesmo quando a morte está logo ali, no quarto ao lado. Almodóvar entrega uma obra que fala de dor, sim, mas também de liberdade, de amor e da força que existe entre duas mulheres que se permitem ser verdadeiras uma com a outra. E talvez seja essa a lição mais bonita: mesmo diante da morte, o desejo insiste. O sujeito insiste. A vida insiste.

Elenice Milani.

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