O Impossível do Amor

Matheus Kramer Margarida

 

O que pode um amor que não aceita limites?

Quando nos aproximamos de sua obra, não estamos diante de uma simples narrativa romântica. Estamos diante de uma experiência radical do desejo. Emily escreve a partir de um lugar muito singular. Uma vida marcada pelo isolamento, pelo silêncio e por uma intensa relação com a natureza. Mas esse isolamento não empobrece sua obra — ao contrário, ele a radicaliza. É como se, afastada do ruído social, ela pudesse escutar algo mais primitivo, mais essencial: aquilo que em nós escapa à linguagem organizada.

E é exatamente isso que encontramos em sua escrita. O romance nos apresenta Heathcliff e Catherine. Mas reduzi-los a personagens apaixonados é perder o essencial. O que está em jogo ali não é o amor enquanto vínculo social, mas o amor enquanto experiência de desmedida.

Quando Catherine diz: “eu sou Heathcliff”, ela não está fazendo uma declaração afetiva. Ela está tocando algo da ordem da identidade. Algo que, para a psicanálise, é profundamente inquietante. Porque o sujeito, tal como nos ensina , só se constitui a partir da falta. Não somos inteiros. Não somos completos. Somos atravessados por uma divisão estrutural.

E é justamente essa falta que nos faz desejar. Mas o que vemos em Catherine e Heathcliff é uma recusa dessa falta. Eles não querem desejar. Eles querem ser. Querem uma fusão impossível. Querem abolir a distância que funda o sujeito.

E é aí que o amor se torna devastador. Porque quando o outro deixa de ser um outro — separado, diferente — e passa a ser vivido como parte de si, o que está em jogo não é mais o encontro, mas a aniquilação. Amar, nesse nível, não é construir. É perder-se.

Heathcliff encarna algo muito próximo do que poderíamos chamar, em termos freudianos, de uma fixação pulsional que não encontra simbolização. Seu desejo não se desloca, não se transforma, não se sublima. Ele insiste. Mesmo após a morte de Catherine, ele continua preso a essa relação. Não há elaboração do luto. Não há renúncia. Há repetição. E aqui podemos evocar , quando nos fala da compulsão à repetição: essa tendência do sujeito a retornar sempre ao mesmo ponto de dor, como se algo não pudesse ser simbolizado e, por isso, precisasse ser revivido.

Heathcliff não consegue perder Catherine. E justamente por isso, não consegue viver. Já Catherine encarna o sujeito dividido. Ela ama Heathcliff, mas escolhe se casar com Edgar Linton. Por quê? Porque há nela um conflito entre o desejo e a ordem simbólica. Entre aquilo que a move internamente e aquilo que o laço social exige. Ela tenta conciliar esses dois mundos. Mas essa tentativa fracassa. E fracassa porque há algo do desejo que não se domestica.

A escolha de Catherine revela algo muito importante: o sujeito pode até se submeter às normas, mas o desejo não desaparece. Ele retorna. E, muitas vezes, retorna de forma sintomática, disruptiva, até mesmo destrutiva. O amor entre Heathcliff e Catherine não é um amor possível. E talvez seja justamente por isso que ele seja tão fascinante. Porque ele toca em algo que todos nós, em algum nível, experimentamos: o desejo de um encontro absoluto.

Um encontro sem falta. Sem distância. Sem perda. Mas esse encontro não existe. E a psicanálise insiste nisso: amar implica aceitar a falta. Aceitar que o outro nunca será totalmente acessível. Aceitar que há sempre um resto, um impossível.

Emily Brontë, de alguma forma, escreve esse impossível. Ela não tenta organizá-lo. Não tenta moralizá-lo. Não tenta explicá-lo. Ela nos coloca diante dele. E talvez seja por isso que sua obra tenha causado tanto escândalo em sua época. O público vitoriano esperava uma narrativa que reafirmasse valores, que organizasse o mundo. Mas Emily faz o contrário.

Ela desorganiza. Ela nos mostra personagens que não pedem desculpas por sua intensidade, que não se adaptam, que não encontram redenção. E, ao fazer isso, ela antecipa algo que só mais tarde será formalizado pela psicanálise: a ide.

Elenice Milani

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