Quando o Amor toca o Impossível do Feminino
Há personagens que atravessam os séculos porque falam de algo que permanece vivo na experiência humana. Medéia é uma delas.
A tragédia escrita por Eurípides continua a nos inquietar porque não apresenta apenas uma mulher tomada pelo ódio ou pela vingança. Ela revela uma experiência subjetiva extrema, aquela em que o amor deixa de ser um lugar de encontro e passa a ocupar o espaço da devastação.
Mas o que é devastação?
Jacques Lacan utiliza esse termo para falar de uma experiência muito particular
do feminino. Não se trata simplesmente de sofrimento, abandono ou tristeza.
Toda devastação implica sofrimento, mas nem todo sofrimento é devastador.
A devastação acontece quando a relação amorosa ameaça apagar o próprio sujeito.
Quando o outro deixa de ser apenas um parceiro e passa a ocupar o lugar de tudo
aquilo que dá consistência à própria existência.
É justamente por isso que Medéia continua sendo tão atual.
Ela abandona sua pátria, rompe com sua família, trai suas origens e renuncia a
tudo em nome de Jasão. Seu desejo passa a girar completamente em torno desse
homem.
Enquanto esse amor existe, sua vida parece encontrar um sentido.
Mas quando Jasão decide abandoná-la para casar-se com outra mulher, não é
apenas um casamento que termina.
Aquilo que sustentava sua própria identidade desmorona.
É nesse ponto que podemos aproximar Medéia da noção lacaniana de devastação.
Freud nos ensinou que o amor nunca é apenas um encontro entre duas pessoas.
Amamos levando conosco nossas marcas inconscientes, nossas faltas e nossas
fantasias.
O amor sempre desperta algo que vem da nossa própria história.
Lacan radicaliza essa ideia ao afirmar que não existe uma fórmula capaz de
garantir a relação entre os sexos.
Sua famosa afirmação de que "não há relação sexual" significa
justamente que não existe uma complementaridade perfeita entre um homem e uma
mulher.
Há sempre um desencontro.
Há sempre um resto impossível de ser simbolizado.
É nesse impossível que muitas vezes a devastação encontra espaço.
Lacan afirma que, para algumas mulheres, a relação amorosa pode assumir uma
dimensão muito mais radical.
Isso não significa que todas as mulheres vivam essa experiência.
Muito menos que essa seja uma característica natural do feminino.
Trata-se de uma possibilidade estrutural.
Algumas mulheres podem investir tanto no amor que a perda do parceiro ameaça
destruir a própria imagem de si mesmas.
É exatamente isso que vemos em Medéia.
Quando Jasão a abandona, ela não perde apenas um homem.
Ela perde o lugar onde acreditava existir.
Sua dor ultrapassa o ciúme.
Ultrapassa o ressentimento.
Ela experimenta um verdadeiro colapso subjetivo.
É por isso que Lacan escolhe a palavra devastação.
A devastação não é simplesmente uma tristeza profunda.
É uma experiência em que o sujeito sente que tudo foi levado junto.
Como se restasse apenas um vazio impossível de suportar.
Nesse ponto, é importante lembrar que Lacan também fala da relação da filha com
a mãe.
Em diversos momentos de seu ensino, ele afirma que a devastação pode surgir
nessa relação primordial.
A menina dirige à mãe uma pergunta que nunca encontra resposta completa.
O que é ser uma mulher?
O que uma mulher quer?
Nenhuma mãe consegue responder plenamente a essas perguntas.
Não porque lhe falte amor, mas porque essa resposta simplesmente não existe.
O feminino guarda um ponto de mistério.
Um ponto impossível de ser totalmente representado pela linguagem.
É justamente aí que nasce uma falta que pode reaparecer mais tarde nas relações
amorosas.
Às vezes, espera-se do parceiro aquilo que nenhuma pessoa pode oferecer.
Uma garantia absoluta de existência.
Uma resposta definitiva sobre quem se é.
Quando essa resposta falha — e ela sempre falha — pode surgir a devastação.
Medéia encarna essa impossibilidade.
Ela exige de Jasão algo que homem algum poderia lhe dar.
Quando percebe que isso lhe escapa, tenta transformar sua própria dor em
destruição.
Seu ato extremo não deve ser compreendido como um modelo de comportamento, nem
como uma justificativa para a violência.
A tragédia não legitima o crime.
Ela revela até onde um sujeito pode ser levado quando perde todas as
referências simbólicas que sustentavam sua existência.
É isso que torna Medéia tão importante para a psicanálise.
Ela nos permite pensar que a devastação não nasce simplesmente da perda do
objeto amado.
Ela nasce quando toda a possibilidade de existir fica concentrada nesse objeto.
Talvez seja essa uma das maiores contribuições de Freud e Lacan para
compreendermos o amor.
O amor é indispensável.
Mas ele não pode carregar sozinho o peso da existência de um sujeito.
Quando esperamos que alguém venha preencher nossa falta de maneira definitiva,
entregamos ao outro um poder impossível de sustentar.
E é justamente desse impossível que nasce a devastação.
A psicanálise não promete eliminar a falta.
Ela nos ensina outra possibilidade.
A de construir uma relação diferente com ela.
Uma relação em que seja possível amar sem desaparecer dentro do amor.
Talvez seja essa a grande lição de Medéia.
Sua tragédia não fala apenas de uma mulher da Grécia Antiga.
Ela fala de todos os momentos em que confundimos amor com completude.
De todas as vezes em que esperamos que alguém responda àquilo que pertence ao
enigma da nossa própria existência.
A devastação nos lembra que nenhum amor consegue apagar esse enigma.
Mas talvez seja justamente quando deixamos de exigir essa resposta impossível
que o amor possa encontrar uma forma menos destrutiva de existir.
Elenice Milani


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