O que é a devastação na psicanálise?

Matheus Kramer Margarida

 

A devastação (ravage) é um conceito desenvolvido por Jacques Lacan, sobretudo no Seminário 20 – Mais, Ainda, quando aborda as fórmulas da sexuação. É nesse contexto que ele afirma uma frase que se tornou célebre:

"Para um homem, a mulher é um sintoma; para uma mulher, o homem pode ser uma devastação."

Mas o que Lacan quer dizer com isso?

Quando afirma que a mulher é um sintoma para um homem, Lacan indica que ela ocupa um lugar em torno do qual se organizam seu desejo inconsciente, seu modo de gozar e também seu sofrimento.

Já a relação de uma mulher com um homem pode tocar um ponto diferente. Ela pode colocá-la diante de uma dimensão do gozo que não se deixa representar completamente pela linguagem. Trata-se do chamado gozo feminino, um gozo que excede o sentido, escapa às palavras e permanece, muitas vezes, desconhecido até mesmo por quem o experimenta.

É nesse ponto que surge a devastação.

A devastação não é simplesmente uma decepção amorosa, um abandono ou um sofrimento intenso. Ela acontece quando uma experiência rompe as referências simbólicas que sustentavam o sujeito, produzindo um abalo na própria consistência da identidade. É um encontro com aquilo que não encontra palavras suficientes para ser dito.

Para pensar essa experiência, Lacan recorre à literatura, especialmente ao romance O Arrebatamento de Lol V. Stein, de Marguerite Duras.

Na história, Lol presencia o instante em que seu noivo a abandona durante um baile para seguir outra mulher. Diante dessa cena, ela permanece imóvel, como se algo tivesse escapado completamente ao campo da significação. O acontecimento não é apenas uma perda amorosa: ele produz um furo na linguagem, uma experiência impossível de simbolizar plenamente.

Na clínica, a devastação pode aparecer como um sofrimento marcado pelo vazio, pela solidão, pela perda das referências, pela dificuldade de dizer o que aconteceu e pela repetição insistente de experiências semelhantes.

Lacan também aproxima a devastação da relação primordial entre mãe e filha. Não se trata de responsabilizar a mãe, mas de reconhecer que esse primeiro encontro coloca a menina diante de uma mulher que também é atravessada por suas faltas, seus desejos e seus impasses. Muitas vezes, aquilo que mais tarde aparece nas relações amorosas já estava inscrito, de alguma maneira, nessa relação primeira.

Freud já havia percebido a importância desse vínculo ao afirmar que a relação com a mãe exerce profunda influência sobre as futuras escolhas amorosas da mulher.

Outro aspecto fundamental da devastação é sua relação com a queda dos semblantes.

Enquanto as imagens que sustentam nossa identidade permanecem de pé, a realidade parece organizada. A devastação acontece justamente quando esses semblantes desmoronam. Caem as identificações, as certezas e as ilusões, revelando um ponto do feminino que não pode ser totalmente representado nem recoberto pelo sentido.

Por isso, a devastação tem a estrutura de um abismo. Ela não se resolve apenas pela compreensão intelectual, nem desaparece porque alguém explica o que aconteceu. O trabalho analítico consiste em construir, pouco a pouco, palavras para aquilo que inicialmente parecia impossível de simbolizar.

É justamente por isso que o cinema se torna um campo tão fértil para pensar esse conceito. Muitas vezes, aquilo que escapa à linguagem pode ser mostrado por uma imagem, um silêncio, um gesto ou um olhar.

É o que encontramos em A Professora de Piano. Erika Kohut não vive apenas um amor frustrado. Sua relação com a mãe, marcada por invasão, controle e ausência de separação subjetiva, já anuncia uma devastação anterior ao encontro amoroso. Quando Walter entra em sua vida, ele não cria essa devastação, mas faz emergir aquilo que já habitava sua estrutura psíquica. O filme mostra, com impressionante delicadeza e violência, a queda dos semblantes, o fracasso das identificações e o encontro da personagem com um gozo que ultrapassa qualquer possibilidade de representação.

Haneke não explica a devastação; ele a faz existir diante dos nossos olhos. É justamente nesse ponto que o cinema e a psicanálise se encontram: ambos nos colocam diante daquilo que resiste às palavras, mas insiste em se mostrar.

Talvez essa seja uma das maiores contribuições de Lacan: mostrar que existe um sofrimento que não nasce apenas da perda do objeto amado, mas do encontro com um ponto de gozo que excede o sentido. A psicanálise não promete eliminar esse impossível. Ela oferece, porém, a possibilidade de que cada sujeito encontre uma forma singular de fazer algo com aquilo que, um dia, se apresentou como devastação. 

Elenice Milani

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