O Corte de Frida Kahlo
Há gestos que parecem pequenos, cotidianos, quase banais.
Cortar os cabelos pode ser simplesmente uma mudança de aparência. Mas há
momentos em que um corte no corpo pode carregar uma dimensão muito maior.
Hoje eu quero falar sobre Frida Kahlo.
E quero partir de uma pergunta.
O que Frida está cortando quando corta os cabelos?
Essa pergunta surgiu para mim quando voltei a olhar para o seu famoso
autorretrato Autorretrato com Cabelo Cortado, de 1940.
Frida aparece sentada, vestindo um terno masculino. Seus cabelos estão cortados
e espalhados pelo chão. Ela segura uma tesoura. E, acima dela, aparece uma
frase que parece dirigir-se a alguém:
“Olha que se te amava era pelo cabelo.”
É uma imagem extremamente potente.
Porque Frida não está apenas nos mostrando um cabelo cortado.
Ela está nos mostrando um corte.
E é justamente aí que a psicanálise pode nos convidar a olhar de outra maneira.
Porque o corte, para a psicanálise, não é necessariamente apenas uma marca no
corpo. O corte pode dizer respeito à separação, à perda, àquilo que interrompe
uma continuidade e produz uma diferença.
Há um antes e um depois de um corte.
E, naquele momento da vida de Frida, havia também um antes e um depois.
Seu casamento com Diego Rivera havia chegado a uma ruptura.
E então podemos formular uma primeira hipótese:
será que o corte dos cabelos procura inscrever no corpo um corte que já havia
acontecido no campo amoroso?
Não se trata de afirmar que sabemos exatamente o que Frida quis dizer.
A psicanálise não deveria funcionar dessa maneira.
Não cabe ao analista olhar para uma obra e dizer: “isso significa isso”.
O que podemos fazer é abrir perguntas.
E talvez a pergunta mais importante seja:
o que significa cortar justamente aquilo que fazia parte da própria imagem de
feminilidade de Frida?
Porque os cabelos, para ela, não eram um detalhe qualquer.
Eles participavam de sua imagem.
As longas tranças, as flores, os vestidos, os adornos, tudo isso compunha uma
determinada representação de Frida como mulher.
E, portanto, quando ela corta os cabelos, alguma coisa dessa imagem também é
colocada em questão.
Talvez seja necessário perguntar:
que mulher está sendo cortada?
A mulher que Diego amava?
A mulher que Diego desejava?
A mulher que Frida imaginava ser para Diego?
Ou uma imagem de mulher da qual ela precisava se separar?
É aqui que Lacan pode nos ajudar.
Porque, para a psicanálise lacaniana, o sujeito não se constitui isoladamente.
Há sempre uma relação com o Outro, com o olhar do Outro, com o desejo do Outro.
Nós nos perguntamos, muitas vezes sem perceber:
O que sou para o outro?
O que o outro deseja em mim?
O que preciso ser para ser desejada?
E talvez seja justamente essa dimensão que aparece de maneira tão forte na obra
de Frida.
“Se você me amava pelo cabelo... então eu corto o cabelo.”
É quase uma provocação.
Mas também pode ser uma tentativa de separação.
Como se dissesse:
“Se é isso que me fazia ser a mulher desejada por você, então vou retirar isso
de mim.”
Mas há uma coisa curiosa.
Ela corta o cabelo, mas Diego continua presente.
Ele não aparece fisicamente na tela, mas aparece na frase.
O Outro está ali.
E isso nos leva a uma questão fundamental:
será que cortar significa necessariamente conseguir se separar?
Talvez não.
Porque podemos cortar fisicamente alguma coisa e continuar profundamente
ligados a ela.
Podemos abandonar uma relação e continuar ocupando, psiquicamente, o mesmo
lugar dentro dela.
Podemos perder alguém e continuar tentando responder à pergunta:
“O que eu fui para esse outro?”
E talvez seja justamente aí que o corte de Frida se torna tão interessante para
a psicanálise.
Porque ela não apenas corta.
Ela transforma o corte em imagem.
Ela pinta aquilo que está acontecendo.
Ela coloca o corte diante do olhar.
Ela faz do próprio corpo, da própria imagem, um lugar de inscrição de uma
experiência.
E talvez essa seja uma das grandes forças da arte de Frida Kahlo:
ela não esconde o corpo ferido.
Ela o mostra.
Ela transforma dor, perda, amor, sexualidade, feminilidade e separação em
imagens.
E, ao fazer isso, produz uma forma de simbolização.
Mas será que todo corte é simbolizado?
Essa é uma pergunta que precisamos deixar aberta.
Porque existe uma diferença entre cortar e conseguir produzir uma separação.
O corte pode ser feito no corpo.
Mas a separação subjetiva é outra coisa.
Ela exige elaboração.
Exige que alguma coisa possa mudar de lugar na relação do sujeito com o Outro.
E talvez seja por isso que o cabelo seja tão significativo nessa obra.
Porque cortar o cabelo é retirar do corpo uma parte da imagem.
É alterar aquilo que o espelho devolve.
E aqui podemos lembrar que, em Lacan, a imagem do corpo tem uma função
fundamental na constituição do sujeito.
O corpo não é apenas aquilo que temos.
Existe também o corpo que vemos, o corpo que imaginamos, o corpo que oferecemos
ao olhar do outro.
E quando essa imagem sofre um abalo, algo do narcisismo também pode ser
atingido.
Talvez Frida esteja dizendo:
“Eu posso retirar de mim aquilo que você desejava.”
Mas talvez exista ainda uma pergunta mais radical:
“Quem sou eu quando já não sou aquilo que o outro desejava que eu fosse?”
E essa pergunta nos aproxima de uma dimensão muito delicada da experiência
feminina que Lacan chamou de devastação.
A devastação não é simplesmente sofrimento.
Ela pode aparecer quando o sujeito fica capturado pela relação com o desejo do
Outro, quando aquilo que deveria sustentar uma imagem de si passa a vacilar.
E então o problema deixa de ser apenas:
“Eu perdi aquele homem.”
E passa a ser:
“O que aconteceu com aquela mulher que eu era para aquele homem?”
Talvez seja aí que o corte de Frida ganhe toda a sua potência.
Porque talvez ela não esteja simplesmente cortando os cabelos.
Talvez esteja tentando cortar um lugar.
Um lugar no desejo do Outro.
Uma identificação.
Uma imagem de feminilidade.
Uma forma de ser amada.
Ou talvez esteja tentando construir outra coisa.
E é justamente porque não podemos responder definitivamente a essa pergunta que
a obra continua nos interrogando.
O que Frida corta quando corta os cabelos?
Talvez o cabelo seja apenas aquilo que podemos ver.
O verdadeiro corte pode estar acontecendo em outro lugar.
No amor.
Na imagem.
No desejo.
Na relação com o Outro.
E talvez seja esse o ponto em que a arte e a psicanálise se encontram:
quando uma imagem consegue fazer existir uma pergunta que não se encerra em uma
resposta.
Frida corta os cabelos.
Mas a pergunta permanece.
O que ainda precisa ser cortado para que uma separação possa, finalmente,
acontecer?
Elenice Milani


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